Embora momentos de crise sejam extremamente conturbados, há um despertar para coisas que cotidianamente não percebemos nessas situações de nebulosidade. É como se nosso olhar tivesse que de se desenvolver e estar mais atento, a fim de que se consiga enxergar as coisas além da penumbra.

O cenário político que atravessamos não é nem um pouco animador, tampouco a crise que passamos parece ter tempo para acabar ou aponte para saídas que renovem e reforcem a democracia. Ao contrário, as soluções mais viáveis apontadas por boa parte do eleitorado nacional consistem em caminhos sombrios e obscuros, em uma espécie de “vale a pena ver de novo” das tenebrosidades do passado.

Inumeráveis questões e problemáticas permitem a compreensão da atual conjuntura política do Brasil. Algumas delas já foram debatidas e explicitadas em textos anteriores desta série. Neste texto, buscarei apontar para situações possíveis no presente e num futuro próximo que se distanciam do caminho retrógrado e perverso que o país pode tomar, ainda que muitos retrocessos já estejam em pleno curso.

Como observa o cientista político Alberto Silva, o desenho do próximo pleito eleitoral indica para ações não institucionais do campo progressista, a partir, sobretudo, dos movimentos sociais. Segundo ele, o lado bom dessa história é o fortalecimento de ações populares capazes de influenciar no modus operandi da política tradicional.

Por meio das percepções de Silva, penso que um dos problemas geradores do cenário político atual foi a falta de uma maior politização em torno de uma série de questões que estavam sendo feitas no Brasil, e que ainda precisam ser feitas, a fim de que o país se tornasse realmente mais justo e, além de produzir riqueza, produzisse desenvolvimento humano e justiça social.

Nesse sentido, o fortalecimento dos movimentos sociais e da participação popular na política é extremamente importante para o maior desenvolvimento em torno da consciência histórica que tanto nos falta e de um melhor entendimento em relação à soberania popular, que excede o ato de votar a cada quatro anos.

Dito de outro modo, não estar numa condição de protagonismo nas situações políticas permite ao campo progressista repensar suas bases, suas ações políticas, suas leituras da realidade brasileira, de maneira a incentivar a intensa participação das camadas populares e dos grupos historicamente marginalizados e excluídos no desenho e funcionamento das instituições políticas.

Para tanto, é necessário, entre outras coisas, desenvolver uma maior capacidade de autocrítica e de aproximação contínua com o povo, o que passa por uma melhor relação com as formas contemporâneas de se fazer política, com a apropriação de mecanismos modernos e tecnológicos de comunicação, como as redes sociais.

A academia também precisa ser (ou voltar a ser) um elemento importante no avanço da sociedade. Para que isso aconteça, entretanto, ela precisa romper com seus enormes muros e dialogar de forma mais íntima com a sociedade que a cerca. Novas mídias e formas de comunicação e difusão do conhecimento se desenvolveram nas últimas décadas e a universidade ainda insiste em permanecer fixa a determinados protocolos, como a linguagem escrita, academicamente hermética e compreensível para poucos.

Os tempos sombrios que vivemos anunciam o ovo da serpente, pronta a espalhar seu veneno sem maiores constrangimentos. No entanto, para toda crise que se anuncia, há também espaços de oportunidade. É neles que devemos nos apoiar e criar formas de resistir, pois por mais que os tempos sejam difíceis para os sonhadores, estes são os únicos capazes de mudar o mundo e colocá-lo para frente.

Mais do que nunca, portanto, é preciso sonhar, lutar e resistir, sem esmorecer ou se entregar, porque por mais violento que o inverno seja, dentro dele, se soubermos procurar, há sempre um verão invencível.

 

PS: Os breves textos desta série não pretendem responder de forma categórica e definitiva as questões que cercam o solo brasileiro e, em certo sentido, até o globo. São impressões de quem acompanha o desenrolar da política, sobretudo em seus níveis microfísicos, e, portanto, tenta perceber no cotidiano as teorias e análises que vê nos livros e nas estruturas de saber formal, como a academia. As análises direcionam-se, assim, a maneira que encontro de organizar minhas percepções e contribuir para o debate público, a partir de textos que possuem uma maior probabilidade de circulação e compreensão por parte do leitor não especializado, inclusive pelo próprio autor não ser nenhum especialista.

 

Veja também:

À beira do Fascismo: A Democracia em Crise

À beira do Fascismo: Petralhas x Coxinhas para além dos estereótipos

À beira do Fascismo: A nova onda Conservadora e o Fenômeno Bolsonaro

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS