Desde as eleições de 2014, a costura política e social que parecia ter alguma firmeza começou a ruir e demonstrar que os antagonismos ideológicos ainda possuem força substancial para polarizar o país e dividi-lo entre dois lados que não se veem com bons olhos. Apesar da clara polarização política entre “mortadelas/petralhas” de um lado e “coxinhas” de outro, esses grupos apresentam muito mais complexidades do que simples reducionismos e estereótipos podem apontar.

Obviamente, a existência de uma democracia pressupõe conflitos e a circulação de ideias antagônicas, haja vista que sendo os sujeitos diferentes e ocupando lugares sociais distintos, não há como todos possuírem as mesmas ideias e opiniões sobre todas as coisas. As diferenças ideológicas em si não representam um problema, ao contrário, são importantes para o fortalecimento dos debates no campo das ideias e o surgimento de novos pensamentos capazes de sanar as querelas existentes.

A problemática que se instaurou no Brasil não se deve ao fato de haver posições ideológicas dissonantes, e sim, a intransigência e a crescente incapacidade de se estabelecer diálogos capazes de discutir questões, ideias, problemas e, dentro dos parâmetros democráticos, encontrar soluções e denominadores comuns para situações antagônicas.

Embora o setor conservador/reacionário apresente maior intolerância e incapacidade de respeitar os institutos e parâmetros democráticos, é preciso considerar que há setores do campo progressista que também possuem enorme incapacidade de ouvir o outro lado, ainda que seja para discordar. Esse impasse dialógico é uma demonstração clarividente do momento conturbado que passamos e do que ainda pode estar por vir, quer no espaço político tradicional, quer nas dimensões microfísicas em que ela também se manifesta.

Dito isso, é interessante tentar definir – ainda que de forma incompleta, haja vista a reiteração de que as complexidades presentes na atual conjuntura política do país demandam mais do que as breves linhas que se sucedem e a observação do autor podem explicar – os campos antagônicos que vem se desenhando nos últimos anos no Brasil.

Por um lado, o campo conservador se apresenta com uma definição mais fácil e homogênea, ainda que, tanto em um lado quanto em outro, existam vozes dissonantes aos aspectos gerais que os definem. Marcado, em linhas gerais, por um projeto que contempla aspectos liberais na economia e uma agenda de costumes bastante conservadora, que desconsidera grupos minoritários e historicamente marginalizados, como quilombolas, indígenas, mulheres, movimentos sociais urbanos e rurais, movimentos LGBT’s, etc., o campo conservador constrói o seu ideário político em torno da ideia de família patriarcal e individualização para resolução de questões econômicas e sociais.

Como disse, é evidente que existem variações e nem todos que estão voltados à direita do espectro político preenchem todos esses requisitos. Entretanto, comparado à esquerda, o lado direitista possui muito mais homogeneidade e, na visão do autor, isso é um dos elementos que tem possibilitado a sua maior aglutinação e ressonância discursiva. Em outras palavras, a bandeira política da direita, ainda que com bastantes ressalvas e exceções, possui um aspecto muito mais homogêneo e uma agenda de pautas mais coesa do que a bandeira da esquerda apresenta, embora o discurso hegemônico procure demonstrar o contrário.

Virando à esquerda do espectro político, encontramos uma maior diversidade de posicionamentos, opiniões e pautas, por mais surpreendente que isso possa parecer. Ocorre que, partindo de uma visão mais questionadora e conflituosa com a ordem estabelecida, o campo progressista possui, em geral, uma construção dialética, que proporciona revisionismos e problematizações de pautas ideológicas propostas pela própria esquerda.

Há de se considerar também a existência de setores mais tradicionais e ortodoxos, que possuem muita dificuldade de dialogar e aceitar mudanças. No entanto, os próprios dogmatismos da esquerda são alvos de questionamentos e propositura de saídas por vias progressistas.

Trocando em miúdos, mesmo havendo posições gerais que definem um sujeito como pertencente ao campo progressista, como a preocupação com questões sociais e inclusão de minorias, há divergências e posicionamentos antagônicos para várias questões. Só para exemplificar, o Partido dos Trabalhadores, mesmo estando no poder, sofreu oposição à esquerda pelo PSOL, que discordava de uma série de posicionamentos e decisões tomadas pelo PT.

Ou seja, a ideia estereotipada do esquerdista “convencional” é uma construção ideológica, reforçada pela mídia hegemônica. As questões identitárias, por exemplo, tornam ainda mais lúcida a questão, já que o surgimento dessas pautas, entre outros fatores, está ligado a dificuldade de setores mais tradicionais e ortodoxos da esquerda de compreender que os conflitos, violências e disputas pelo poder no mundo contemporâneo extrapolam a ideia de luta de classes, ainda que esta não deixe de existir.

Diante de um cenário multifacetado, a bandeira ideológica do campo progressista, embora apresente muitos pontos convergentes, possui também muita dificuldade de formar uma frente ampla e capaz de aglutinar àqueles que se colocam à esquerda do espectro político. As candidaturas multifacetadas, em um cenário eleitoral com iminente vitória do campo conservador, entre outras questões, evidenciam as diferenças ideológicas dentro do próprio campo progressista.

É claro que também existem diferenças do outro lado, haja vista a apresentação de candidaturas multifacetadas. Entretanto, no geral, há uma homogeneidade maior no campo conservador, que consegue aglutinar com maior facilidade os seus setores mais dissonantes se comparados com o campo progressista.

Apesar disso, é necessário dizer que estar vinculado à direita no espetro político ou até mesmo se autodenominar conservador não significa necessariamente ser intolerante, despolitizado ou contra a democracia, bem como nem todos sujeitos de direita, liberais, no frigir dos ovos votarão no Bolsonaro ou reproduzem o discurso de que as pautas das esquerdas são besteiras sem significado ou importância. Do mesmo modo, nem todos indivíduos que se autodefinem de esquerda e/ou progressistas são defensores irremediáveis do PT ou desconsideram que sujeitos de direita podem agregar bons valores e ideias ao debate público.

Em suma, porque a ideia não é debater de forma prolixa todos os pormenores de questões historicamente complexas, definir um lado do campo político a partir de estereótipos é ser extremamente simples e fugir do real, embora existam indivíduos à direita e à esquerda que parecem reforçar esses lugares comuns. Entretanto, por mais que o texto demonstre que existem complexidades em todos os lados e que ter a existência de posicionamentos ideológicos divergentes em uma sociedade não é, em si, um problema para a democracia, na conjuntura política atual do Brasil há uma agenda muito mais homogênea do lado conservador e, não raras vezes reacionário, o que implica uma maior probabilidade de aglutinação de pessoas e, consequentemente, vitória nas eleições.

Há outras questões para além das colocadas que ajudam a compreender o panorama político atual no Brasil, como os fenômenos semelhantes espalhados pelo mundo, do qual Donald Trump é o maior ícone. Mas isso é assunto para um próximo texto.

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