O atual cenário político do Brasil, prestes a ocorrência de um pleito eleitoral, se apresenta a partir de perspectivas nada animadoras para o campo progressista, haja vista o avanço conservador e reacionário presente no país. Mais do que apenas constatar com estarrecimento a imagem sombria que se desenha no presente e com perspectivas futuras, é necessário buscar instrumentos para analisar com criticidade a conjuntura que atravessamos e, provavelmente, passaremos no futuro próximo.

Após 13 anos no poder, o Partido dos Trabalhadores sucumbiu com o golpe jurídico-parlamentar implementado em 2016, que depôs Dilma Rousseff, então presidenta reeleita democraticamente. Por mais que críticas possam ser feitas ao governo Dilma, em específico, e à estrutura burocrática e política do PT, no geral, o bom funcionamento da democracia deve respeitar como condição fundamental à sua existência a soberania popular, exercida, no caso brasileiro, quase que exclusivamente por meio do voto, embora haja outras formas de participação popular nos rumos da política nacional.

O desrespeito à soberania popular por parte do legislativo e do judiciário, claramente jogando de acordo com as manifestações e posicionamentos da parcela da população contrária ao prosseguimento do PT na liderança política do Brasil, quebrou as estruturas da nova república, que há menos de 3 décadas vinha se construindo no país.

A partir disso, era inconcebível que a política, em níveis macro e microfísicos, continuasse funcionado dentro de limites democráticos e, portanto, respeitosos para com institutos constitucionais e sociais conquistados historicamente, bem como, em relação aos debates ideológicos, uma vez que a pluralidade discursiva e ideológica também são elementos importantes para o bom funcionamento de um Estado democrático.

Ao contrário, observamos nos últimos anos o acirramento violento dos debates, com traços profundos de intolerância às opiniões e posicionamentos políticos contrários, tanto à esquerda, quanto à direita. Debater respeitosamente e dialogicamente dentro do campo das ideias tornou-se algo hercúleo, para não dizer quase impossível, dada a ferocidade com que parcela significativa da sociedade esbraveja as suas verdades sacralizadas sobre tudo e todos.

Apesar, de como o texto deixa explícito, haver ferocidade, violência, intolerância e desrespeito em todos os lados do espectro político; não se pode negar que o avanço conservador e, em muitos casos retrógrados, assumiu o protagonismo das ideias políticas e, mais do que qualquer outro grupo, dispara a golpes fortes suas ideias custe o que custar, inclusive à democracia.

Nesse sentido, a figura do presidenciável Jair Messias Bolsonaro representa o ideário político de setores, grupos e indivíduos conservadores e reacionários que, durante as duas últimas décadas, encontravam-se escondidos e desesperados para encontrar um momento que lhes permitisse sair e uma voz que os fizesse representar.

Entretanto, mais do que apenas tentar ridicularizar Bolsonaro, como boa parte da esquerda e do campo progressista ainda insiste em fazer, como se ele já não representasse uma realidade assustadora, pronta a se concretizar; parece-me mais inteligente tentar compreender, ainda que em poucas linhas, em que consiste o “fenômeno” Bolsonaro e de que modo o campo progressista tem se portado nesse processo.

Embora haja conquistas inegáveis desenvolvidas pelo Partido dos Trabalhadores, sobretudo em relação ao entendimento de que a injustiça social era um mal que precisava ser combatido e, por consequência, a promoção de políticas públicas visando diminuir às desigualdades sociais; erros também aconteceram, como a falta de politização em torno do que estava sendo feito no país e do que ainda precisava ser feito, a fim de que os objetivos supracitados pudessem, de fato, ser atingidos.

É evidente que isso demandaria um maior fortalecimento dos movimentos sociais e da participação popular, contrapondo-se às engrenagens da política tradicional. Como sabemos, isso não aconteceu, o que permitiu, em larga medida, que as forças opositoras e todo caldo reacionário, sempre pronto a ser aquecido, ganhassem força em uma escalada de poder tão admirável quanto assombrosa.

O crescimento político de Bolsonaro representa apenas a ponta de um iceberg que vem se fortalecendo desde as manifestações pró-impeachment e o golpe de 2016. Fenômeno que deixa claro a incompetência do campo progressista de ter uma leitura mais límpida sobre o que estava acontecendo e o que poderia vir a acontecer.

Ao desconsiderar ou tentar desconstituir Bolsonaro, houve também uma incompreensão ou falta de vontade de perceber que a candidatura do presidenciável não consta apenas com o apoio de parte das elites, mas também de grande parte dos setores populares, que buscam, dentro de visões simplistas obviamente, resoluções para problemas que os acometem diariamente, como a violência urbana.

É preciso deixar claro que construir um projeto de país a golpe de frases feitas, como “Bandido bom é bandido morto”, é um caminho extremamente fácil diante dos problemas educacionais e históricos que nos afligem enquanto nação, além da mídia ideologizada e violenta que temos, sem contar toda a turbulência e fragilidade democrática desencadeada a partir do golpe de 2016, como o texto evidencia nas suas primeiras linhas.

Apesar de tudo isso, e não são poucas barreiras a se enfrentar, o PT também tem a sua parcela de responsabilidade pela falta de politização das pessoas, sobretudo dos grupos populares e subalternizados, facilmente cooptados às ideias conservadoras e reacionárias representadas pela candidatura de Jair Bolsonaro; além de haver ainda uma resistência/dificuldade do campo progressista de se apropriar de novas formas e espaços de enfrentamento e discussão, como as redes sociais, e a insistência em leituras, a meu ver, pouco inteligentes e pouco pragmáticas diante de um cenário tão tenebroso para as esquerdas e para o povo.

Como toda moeda tem dois lados, o avanço reacionário no país evidencia que as mazelas históricas da escravidão – simbolizadas no racismo, machismo, ódio de classe, exclusão social, homofobia, desigualdades sociais, violência, etc. – ainda permanecem como uma herança pesada e renitente e, mais do que ser apenas um fenômeno de elite, conta também com a instrumentalização das massas, que diante de um mundo que se anuncia inseguro e incerto, procura alternativas de conservação daquilo que possui, seja em termos materiais, seja em termos extra-materiais, como a religião e todos os instrumentos e símbolos representativos dos seus valores éticos e morais.

Evidencia também que o campo progressista precisa se organizar em torno de leituras mais profundas e, em certo sentido, mais pragmáticas da realidade; bem como se apropriar de instrumentos fundamentais no campo discursivo e político atual, como as tecnologias da informação e comunicação, da qual as redes sociais são o maior símbolo. Além disso, caso ganhe as eleições, o que seria uma grande virada dada a atual conjuntura, o campo progressista precisa se articular melhor com o mundo que os cerca, criando um ambiente de intensa participação popular a partir de parâmetros que deixem claro as dores, misérias e violências que regimes de exceção possuem e a extrema intolerância nos discursos daqueles que a proferem.

PS: Queria deixar claro que não sou especialista na área, tampouco possuidor de verdades incorrigíveis e insuperáveis. Portanto, as minhas impressões acerca do cenário político nacional não representam a única versão sobre os fatos, muito menos minha opinião definitiva sobre tudo, haja vista que como seres dialéticos estamos em constante transformação ou metamorfoses, como cantou Raul. Ademais, um texto curto não esgota, nem pretende esgotar, a totalidade de questões e problemáticas presentes ao longo da história brasileira, da qual o atual momento é apenas um demonstrativo. Sendo assim, pensem e reflitam a partir de si mesmos, com todo o aporte teórico e informativo que tiverem acesso, sobre os pontos que o texto apresenta e também àqueles que não se mostram. Esse esclarecimento mais do que tentar criar restrições acerca de comentários sobre o texto, é justamente o contrário: uma forma de ajudar no processo reflexivo, ainda que cada sujeito deva formular seus próprios pensamentos e opiniões. Por fim, gostaria de dizer que algumas questões não desenvolvidas com a necessidade devida, serão discutidas em outros textos.

Veja também:

À beira do Fascismo: Petralhas x Coxinhas para além dos estereótipos

À beira do Fascismo: A nova onda Conservadora e o Fenômeno Bolsonaro

À beira do Fascismo: A reinvenção do Campo Progressista

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS