A ascensão e o crescimento político de Jair Bolsonaro na atual conjuntura política do Brasil é algo que causa enorme espanto, no sentido ruim, uma vez que, diante de tantos horrores colocados com enorme naturalidade pelo presidenciável, tem-se a impressão de que estamos em uma viagem retrógrada no tempo, em que a história do país, por um lado se destrói, enquanto por outro se repete.

O fenômeno Bolsonaro, apesar de assustador, é explicável e deve ser explicado, a fim de tornar mais lúcida a problemática. A adesão de boa parte do eleitorado a um candidato que defende mais do que uma agenda conservadora, uma agenda reacionária, é sintomática de um momento problemático no país, em que a Democracia parece já não fazer tanto sentido.

Como exposto no primeiro texto desta série – À beira do Fascismo: A Democracia em Crise – a deposição a partir de um golpe jurídico-parlamentar de uma presidenta democraticamente eleita, por mais que também houvesse grande clamor popular pela sua saída, colocou o país em uma escalada de violência contra a Constituição e vários parâmetros que ela estabelece para o bom funcionamento democrático do Estado brasileiro.

Era de se esperar que, a partir do golpe de 2016, o país passasse por uma crise institucional, com enormes questionamentos acerca da soberania popular e dos institutos e instituições democráticos. Imbricado a todo esse processo, evidentemente, encontra-se a operação Lava-Jato, tão polêmica e contraditória quanto a deposição de Dilma Rousseff, que, embora cumpra com a sua função republicana de não permitir que coisas que não estejam a favor do interesse público aconteçam, no mínimo, apresenta traços despóticos e contrários ao funcionamento equilibrado dos poderes que regem a república.

Embora muitas problemáticas podem estar relacionadas à Lava-Jato, o que importa para o texto é demonstrar como ela está vinculada ao processo de descrença e, em alguns casos, ruptura com os parâmetros que regem o bom funcionamento da democracia. E isso não se deve em específico à referida operação da PF, mas a todo imaginário social criado e/ou alimentado a partir dos desdobramentos que ela provocou, inclusive com a intensa participação midiática de seus mentores e operadores, alguns tornando-se até mesmo popstars, com referências messiânicas.

E por falar em messianismo, diante de uma conjuntura extremamente conturbada, com um presidente sem constitucionalidade e legitimidade, além de uma série de problemas que se aprofundaram desde o golpe, como o desemprego, o subemprego, a informalidade, a violência urbana, etc., um candidato que se apresenta como algo novo, diferente do está posto, dissociado da política tradicional e com soluções mágicas e simples para problemas estruturais e complexos, obviamente possuía a conjuntura perfeita para se apresentar como o Messias e ter a credibilidade necessária para tanto.

É importante salientar que, ainda que parte da elite e da classe média acenem positivamente e assertivamente para o Bolsonaro, ele também possui bastante adesão entre as classes populares, o que é fundamental na sua força e capacidade de, de fato, ganhar as eleições.

Esse fator durante muito tempo ficou encoberto ou não quis ser percebido pelos setores progressistas, que pela via da fragilização e desconstituição da figura do Bolsonaro tentavam fugir da dura realidade de que ele crescia entre as classes C, D e E. É claro que o discurso do Bolsonaro precisa ser desconstruído, inclusive por ser fundamentado em mentiras e incoerências históricas. Entretanto, é preciso considerá-lo como um candidato forte e difícil de ser batido, ao contrário do que muitos acreditam.

Deve-se considerar e problematizar também os porquês do crescimento de Bolsonaro entre as classes populares, às quais em momento algum da sua trajetória política procurou beneficiar. Conquanto existam diversas questões envolvendo a adesão popular ao candidato reacionário, creio que três pontos sejam fundamentais.

O primeiro diz respeito ao poder da linguagem e do discurso, haja vista a mídia ideologizada que possuímos, vinculada aos interesses dos velhos senhores de terra, daqui ou do outro lado do atlântico, e, portanto, mantenedora das velhas hierarquias que separam o mundo entre senhores e escravos.

A segunda se relaciona à primeira, mas está associada às formas de apropriação das tecnologias da informação e comunicação, em que enquanto setores conservadores e reacionários demonstram enorme domínio dessas ferramentas, o campo progressista, após muito relutar, está dando seus primeiros passos.

A última, em íntima imbricação com as demais, refere-se aos problemas estruturais da sociedade brasileira e que coloca os grupos populares em uma situação de medo – que é alimentada pelo discurso hegemônico – de maneira que a conservação do pouco que possuem e a possibilidade de resolução individual para problemas coletivos, como a violência e sua “solução” direta, a liberalização de armas de fogo, parecem ser o melhor caminho a seguir.

Além de questões materiais e mais imediatas, em um momento de enorme fragilidade institucional, de crise política e econômica, os indivíduos tendem a querer conservar seus sistemas de crenças e norteadores existenciais, como a religião. Nesse sentido, o crescimento de Bolsonaro entre os setores populares também é explicado pela sua agenda conservadora de costumes. Não se pode ignorar que parcela significativa dos grupos populares, em específico, e dos brasileiros, em geral, definem-se como cristãos e possuem opiniões mais conservadoras em relação a uma série de assuntos que o campo progressista debate de forma mais aberta.

Mas, para além dos aspectos internos, há também fatores externos que ajudam a explicar o fenômeno Bolsonaro e tudo que ele representa. O mundo inteiro vem passando por uma crise democrática, de modo que alguns autores, inclusive, já pensam em uma sociedade “pós-democrática”. As sociedades se apresentam cada vez mais inseguras e incertas, com contextos de crise econômica, política e social, o que cria um cenário global de avanço conservador e, em muitos casos, retrógrados. Em uma espécie de populismo à direita, sujeitos tidos como outsiders, ainda que não sejam – basta lembrar que Jair Bolsonaro é parlamentar há quase 30 anos –, como Donald Trump, tem consegui se eleger.

Resumindo a trágica ópera que nos últimos anos vem sendo ensaiada e, em alguns lugares e momentos, apresentada, o crescimento político de Bolsonaro e a adesão ao seu discurso marcado por uma ideologia reacionária, violenta, odiosa e excludente, representam um fenômeno de ordem global, em íntima ligação com a conjuntura histórica atual, definida por crises em diversos aspectos.

É claro que muito mais coisas se relacionam a todo esse processo, mas, em linhas gerais, tentei explicitar a minha visão sobre o fenômeno Bolsonaro, o que não exclui outras. Como a intenção da série “À beira do Fascismo” é levantar questões que possam ajudar a elucidar o atual panorama histórico do Brasil e suscitar o debate a partir de análises mais coesas, é importante não perder o fio da meada e buscar compreender de que maneira a crise da democracia, a polarização política e o fenômeno Bolsonaro estão relacionados.

Mas, mais do que isso, é preciso também encontrar a possibilidade de reconstrução através das ruínas e enxergar a oportunidade em meio à crise. E, por mais desanimador e desesperançoso que o cenário atual pareça, são nas piores tragédias que as mudanças mais profundas acontecem.

Veja também:

À beira do Fascismo: A Democracia em Crise

À beira do Fascismo: Petralhas x Coxinhas para além dos estereótipos

À beira do Fascismo: A reinvenção do Campo Progressista

RECOMENDAMOS



COMENTÁRIOS