*Uma breve crítica do filme (2008) de Abbas Kiarostami

Título: Shirin

Direção: Abbas Kiarostami

Nacionalidade: Irã

Duração: 99 minutos

Gênero: Drama

Ano: 2008

Estou verdadeiramente encantado com o filme “Shirin” (2008) do diretor iraniano Abbas Kiarostami. O longa, que conta com a participação de 114 notáveis atrizes do país do cineasta e mais a especialíssima presença da francesa Juliette Binochet, trabalha com uma ideia próxima da que nos acostumamos na arte literária: a de que o espectador, que no caso da literatura seria o leitor, deve reconstituir a história narrada a partir das percepções que vai construindo com o desenvolvimento do enredo, sem ter acesso visual às ações das personagens. No entanto, diferentemente do que se daria com um livro, o espectador conta com a ajuda dos sons onomatopéicos que denotam algumas das mudanças abruptas de cena, o olhar das mulheres que assistem o filme (no caso as atrizes convidadas) permeados de reações que vão desde o torpor de encanto até a amarga melancolia – indo em consonância com a ideia do espectador sujeito-objeto -, os diálogos contundentes que exercitam a audição (e para quem vê o filme legendado, não há outra opção senão a atenção irrestrita ao texto que os acompanha como se estivéssemos apreciando uma peça clássica, tamanho o refinamento das conversações) e a própria emoção que ora se acentua ora se abranda, mas não se materializa, vindo à tona a todo instante, nessa linha ziguezagueante, com a celeridade que toma “romance” com o passar do tempo – vou usar a linguagem ocidental para nomear o estilo da constituição narrativa.

Todos esses elementos ajudam a compor e a entender a trama, embora eu tenha acabado não captando alguns liames importantes, já que algumas das modificações (não vistas) dos plano dificultam a construção de uma sequência lógica para quem já está acostumado com o cinema comum. A filmagem de Kiarostami se restringe nos seus quase 90 minutos de duração à sala de exibição da estória e aos olhares das atrizes. A belíssima trama em questão (que foi selecionada aleatoriamente pelo diretor para que as atrizes a vissem, diga-se de passagem) é uma história de amor que envolve a herdeira do trono armênio de nome Shirin e o futuro imperador romano Khosrow, romance mitológico persa de autoria da poetisa iraniana do século 12, Nezami. Tive a oportunidade de ver outros longas de Abbas como os clássicos “Gosto de Cereja” (1997) e “Close-Up” (1990). É complicado afirmar que “Shirin” tenha grandiosidade superior ou comparável aos seus antecessores. Mas, sem dúvidas, dentro da filmografia do iraniano e mesmo no rol das propostas mais recentes que tem surgido na direção de romper com a “quarta parede”, “Shirin” guarda a incomparável capacidade de aproximar gêneros distintos de exposição e interpretação da ação humana.

A seguir, o trailer do filme:

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Aproveitando que publico esse texto no sábado a noite, deixo o som da disco dos anos 70, o “embalo de sábado a noite” dos meus ouvidos, comemorando a estreia da coluna no site que ocorreu essa semana. Boa noite e bom fim de semana!

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Alberto Silva
Cientista Político, que carrega além das inquietações com a nossa sociedade e as formas de poder geridas a partir dela, um gosto pela escrita, pelas imagens e pelas diversas maneiras de expressão da beleza que está por trás do nosso interior.