Trazemos aqui a transcrição de um trecho da palestra de Leandro Karnal para o Café Filosófico. No trecho, Karnal faz uma reflexão sobre a solidão e o medo que temos de estarmos sozinhos no mundo.

“Somos seres solitários. Sempre fomos, mas a consciência coletivista medieval gerava a sensação de uma cristandade no Ocidente, de uma unidade, de um deus que por todos zelava e de uma sociedade igual religiosamente. Já a modernidade trouxe a diversidade religiosa e política.

Sartre, no século XX, disse, através de uma de suas personagens do livro Entre Quatro Paredes, que o inferno está nos outros. Sartre e Hamlet chegaram à conclusão de que estamos, inevitavelmente, isolados em nossas próprias consciências e, em paralelo a isso, há a necessidade do mundo em nos oferecer coisas novas porque não temos nada com quê interagir no mundo.

Por que nós temos que assistir ao filme Velozes e Furiosos 75 e Velozes e Furiosos 86? Porque, na realidade, eu não vi nenhum e, não tendo visto nenhum, eu preciso que eles se repitam. Como eu não tenho, de fato, amigos, eu acabo tendo três mil amigos virtuais no Facebook. Como eu não tenho uma vida interessante eu fotografo tudo e compartilho as fotografias com todos. A minha solidão se insinua de tal forma – ela é tão estrutural – que eu preciso fazer com que os outros me digam aquilo que eu desconfio: que a minha vida, através da observação dos outros, vale a pena ser vivida. Isso não é exatamente um sinal de um narciso fraco e, sim, um sinal de um narciso cada vez mais isolado em si, sem comunicação com o mundo e que não ouve mais a ninguém.

Nosso tipo de conversa é obsessivo: quaisquer informações expostas são respondidas com informações de outras pessoas. Por exemplo, se eu informo que meu signo é de aquário o outro responde que o dele é de gêmeos. Ninguém ouve ninguém. A solidão individual, a dois ou a três, é a norma de todas as pessoas. E celebramos esta variedade de coisas porque, cada vez mais, temos dificuldade em estabelecer algo significativo e orgânico.

O príncipe se sente mal na corte de Elsinore porque ninguém em Elsinore lhe diz a verdade. Todos os personagens (Polônio, seu tio Cláudio, sua mãe, sua ex-namorada e seus falsos amigos) lhe dizem o que deve ser dito e o que é usual, mas ninguém está presente naquilo que fala. O príncipe é extraordinariamente consciente e, portanto, irá pensar constantemente: “O que eu faço com minha vida? Como viver uma vida orgânica se todos os valores estão esgarçados?”. Ao morrer em uma cena trágica (morrem oito pessoas na peça, sendo Hamlet o último a falecer nos braços de seu amigo), Hamlet diz sua última frase: “O resto é silêncio”. Depois de ter dito tudo o que era possível dizer, Hamlet não precisa dizer mais nada, pois o resto é silêncio.

Hamlet parece dialogar conosco no sentido de que as dores que inventamos, como as financeiras, físicas e de problemas familiares, são o disfarce de uma grande dor maior, sendo essa a dor que não conseguimos nominar. Por isso estabelecemos dores laterais, por exemplo, estabelecemos se estamos bem ou não em determinado dia. Hamlet diz que essa dor nasce do fato de que todos os presentes na peça, em quase 4.500 versos, estão lhe dizendo o que ele deve ou não ouvir e não exatamente o que as coisas são. Hamlet, objetivamente, está olhando para o mundo e se perguntando: “Quando é que haverá alguém que irá me dizer o que as coisas são? Quando é que alguém parará de dizer o que deve ser? Quando alguém parará de colocar fantasias? De beber muito? De disfarçar a sua dor? Quando alguém começará a estar presente naquilo que fala? Quando as pessoas começarão a ser e deixarão de não ser?”. Essa última questão é uma pergunta difícil de ser respondida e, por isso, a maior parte de nós prefere não a responder.

Nós falamos muito a todo o instante, como pelo celular e WhatsApp, porque não temos mais nada a dizer. E não tendo nada a dizer nós preenchemos este vazio insuportável com falas constantes.

Hamlet nos convida a olhar para uma caveira (em referência a quando Hamlet profere o seu monólogo olhando para uma caveira) e perguntar decididamente, diante da morte inevitável: “Quem eu sou de verdade? Quem eu serei quando os outros que eu acho que me julgam pelo o que eu devo ser tiverem desaparecido? Por que eu não vivo de tal jeito? Por causa de meu pai e minha mãe?”. Sartre chamaria isso de má-fé e Hamlet chamaria apenas de Polônio, ou seja, trata-se de encenação e etiqueta, por exemplo: “Não posso fazer isso! O que minha família diria?”. Nesse caso, a família diria muito ou nada, mas ambos os casos seriam irrelevantes, pois, independentemente de a família apoiar ou criticar, você continuará sozinho.

Entretanto, você prefere, ao invés de enfrentar a solidão de sua decisão, dizer que é uma opção por causa da sua família, vizinhos, filhos ou da sua fé e sentir-se vigiado do que se sentir sozinho; prefere sentir-se protegido pela crítica do que largado pela indiferença. Esta é a pergunta central de Hamlet: “O que eu responderia se nada fosse relevante a não ser a minha decisão e se nada garantisse que minha decisão estivesse correta? Quem eu seria se eu estivesse absolutamente só no mundo?”. A resposta do príncipe é: “Você está só no mundo e sua vida será sempre solitária com outros solitários ao redor dando opiniões sobre eles enquanto você interage dando opiniões sobre si e dizendo que você não toma tal decisão porque o outro é o obstáculo”.”

Transcrição feita e adaptada pelo Provocações Filosóficas da palestra: Hamlet e o Mundo Como Palco | Leandro Karnal | Café Filosófico.

Assista na íntegra:

Leandro Karnal (São Leopoldo, 1º de fevereiro de 1963) é um historiador brasileiro, atualmente professor da UNICAMP na área de História da América. Foi também curador de diversas exposições, como A Escrita da Memória, em São Paulo, tendo colaborado ainda na elaboração curatorial de museus, como o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo.

Graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e doutor pela Universidade de São Paulo, Karnal tem publicações sobre o ensino de História, bem como sobre História da América e História das Religiões.