O problema da humanidade é a ideologia de cada um. Já que nada sabemos, banhados por todo o mistério e poupados de qualquer verdade, ficamos atormentados. E então nos transformamos em certo tipo de pessoa aqui em nosso mundo, passamos a acreditar em alguma coisa que irá nos ajudar a passar por nossa vida, pois aquilo que acreditamos nos dará algum conforto, algo em que se apoiar, em que crer. E vive-se por isso: pelo que você crê, ou, pelo menos, segundo o que você crê. Lembrando que muitas vezes a pessoa nem tem escolhas em que acreditar; é forçada, por suas condições, a executar certo tipo de vida, e então esse passa a ser o seu único meio de mundo e até os seus ideais.

Bom. O problema, como eu dizia, a meu ver, é que o ser humano muitas vezes não tem por base o que se classificaria como humanidade. Não se vive pelo simples fato de desfrutar da companhia do próximo, dando e recebendo amor. Se isso ocorresse, seríamos todos livres. Só que você normalmente cria um mundo para si, regado a expectativas, um mundo que você idealiza — e isso tudo, talvez, por aquela nossa implícita ou não necessidade de sentido. Ele será a sua estrutura, a sua fonte de felicidade. E enquanto as pessoas ao redor estiverem de acordo com suas crenças, você estará em paz com elas. Mas no momento em que elas comprometem sua ideologia, se voltam contra o seu mundo, contra aquilo que você acredita, o humanismo em ti se acaba.

Você descobre o seu lado mais cruel, aparentemente morto até então. Você descobre tudo aquilo do que é capaz e até aonde pode chegar. Você sacrifica tudo ao seu redor — através da maldade, muitas vezes — a fim de proteger aquilo que você tem a sensação (ou ilusão) de lhe trazer felicidade.

Ao fim, entretanto, você acaba sacrificado. Sim, a humanidade é um rebanho, e não há exceções.

E se colocar no lugar do próximo, sentir o próximo, amá-lo… A humanidade ainda é extremamente imatura para colocar em prática essa empatia. Ainda nos encontramos em épocas egocêntricas. E por isso crê-se que o mundo é infeliz: porque esse nosso amor-próprio tão mal interpretado por nós mesmos, que sacrifica tudo o que vê pela frente em vez de criar relacionamentos fortificadores e libertadores com as pessoas e até com a vida, acaba nos aprisionando, nos trazendo o mais artificial dos contentamentos.

Praticar a humanidade exige muita sabedoria, creio eu — não é algo já nato em nós e que apenas ignoramos —, pois essa tarefa é muito complexa. E digo tarefa uma vez que é dever de todos nós sermos humanos, ou o mundo continuará infeliz, nesse eterno gemido excruciante e sangrento.

Oh! A essa altura, eu me acostumei à vida! Estou conformada em ter de passar certa estadia do meu eu aqui, neste mundo. Nesse mundo que me agarra, me comprime, me sufoca e me obriga. A essa altura, tu já não és mais nada para mim, mundo. Em definitivo.

 

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Caroline Fortunato
Autora de "O Lado Real do Abstrato." Nascida com a maldição da Literatura ao mesmo tempo em que salva por ela.