Não finalizei. Mas cansei de esperar. Fui reto
Fui torto. Atrás de mim convive a lembrança
De um besouro encravado entre folhas vermelhas
De um outono senil que desperta a angústia
De um baço de elefante saturado de surpresas
Reina aquela imagem convicta. Convexa. Das suas naturalizações

O espelho está rachado. Mas pelas veias circula um líquido
Ácido. Atômico. Doce. Salgado. Em dias de chuva esfumaçada
Em tardes muito tardes. Onde se ouve um ruído. De desespero
Mas logo aqui ou logo ali há esperança. Em poucas quantidades
As cores mistas me atraem e isso não quer dizer coisa que valha
Diz muito sobre um certo lugar parado no tempo mas ao mesmo tempo
Movimentado. Acelerado. Sem linearidades ou expectativas
Circundantes. Deixa-me tomar um banho da tua misericórdia

Deixa-me ser um afã em meio a discórdia
De ferro e fogo que queimam literariamente. Na zona cinza
Obscura. Irritante. Como a água que cai sobre os teus pés
Os pés mais lindos. Os olhos mais brilhantes. A boca. Bem
Não se pode dizer veleidades sobre um constructo artificial
De mentiras e verdades. De enganos e certezas. Até o ponto. Em que
Enganos são mentiras e certezas são verdadeiras
Quem disse. Quem elaborou esse ambíguo dicionário de significações

O contexto diz muito. O contexto diz tudo
A história não cala. Não cansa. De. Ser. Aquela. Cômica
Tragédia. Bem. Elaborada. Bem. Amalgamada. Sob o branco véu
Véu de noiva. Ou de noivo. Que se vê no contratempo. De ter que
Espernear por sua dignidade na mentirosa relação matrimonial
Patrimonial. Onde os dentes se mostram rígidos. Onde o corpo se mostra flácido
Onde o sentimento é só um detalhe. Como um prato que decora a mesa
A mesa do café, do almoço, do jantar. Arrebatando teu pó de fel.

O mais importante nessa nossa narrativa é não se deixar enganar
Pelos falsários farsantes. Pelas colinas imaginárias. Pelas senhoras de nada
Que põem ou impõem uma criação lasciva, pervertida, depravada
De muitos e muitos anos em que o verdadeiro segredo se esconde
Embaixo de um bilhete muito doce que avisa que o fim está próximo
Mas ele nunca esteve tão distante. Como o pai que abandonou seus filhos
E foi-se. Foi-se embora para um horizonte de plenas plenitudes
Onde o que mais vale é a correspondência abstrata entre mim e eu

Embora. Se algum dia for. Vou-me tocado. Porque vi
Com tudo aquilo que permanece por debaixo dos panos
Sem imperativos categóricos sem ordens mandos ou desmandos
A horrenda saída do rato do buraco e da cobra da areia
A liberdade é o pior dos castigos ao lado do sentimento
Sentimento esse qualquer que seja. Bom ou ruim. Moral ou imoral
Como as abelhas habitam a colmeia, o “qualquer um” te engole
E mora filosoficamente em ti. Lutando por espaços

Poema de autoria do colunista

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Alberto Silva
Cientista Político, que carrega além das inquietações com a nossa sociedade e as formas de poder geridas a partir dela, um gosto pela escrita, pelas imagens e pelas diversas maneiras de expressão da beleza que está por trás do nosso interior.