Leandro Karnal, no XVI Encontro Paulista de Farmacêuticos, fala sobre a ética na educação dos filhos. Confira abaixo a transcrição do trecho.

O que aconteceria se não houvesse nenhum Céu ou Inferno para definirem o certo e o errado? O que aconteceria se uma pessoa pudesse fazer algo que ninguém testemunhasse e que, portanto, não interferisse em sua eternidade? Por que matar é errado, independentemente do quinto mandamento? Por que desrespeitar os pais é um equívoco, independentemente do Céu e do Inferno? Essa é a questão da ética: qual é o sistema racional para uma pessoa poder desenvolver?

Aristóteles escreveu o livro “Ética a Nicômaco”, cujo título contém o nome de seu filho. Com esse livro, o autor quis mostrar ao filho o que era o bom comportamento. Desde o primeiro capítulo do livro, Aristóteles afirma que a ética é adquirida pelo hábito, ou seja, ela não é nata no ser humano – ao contrário do que pensava Platão. Então, o primeiro mandamento ético de Aristóteles é que as crianças são amorais, não sabem o que é certo e o que é errado e não medem consequências de seus atos – elas têm que ser ensinadas.

Contudo, a força ética está em colapso nos dias atuais. A força para ensinar está diminuindo entre os adultos, pois estes têm medo de não ser amados e acabam mimando as crianças. Em vez de amor, criam imbecis insuportáveis, que é o resultado de todo mimo. Os pais que amam muito, ao mimar, estão produzindo alguém incapaz, desagradável e inútil no futuro.

Se os pais querem educar, precisam estabelecer limites, pois estes provocam traumas, que é o início da educação. Por exemplo, se uma criança coloca um de seus dedos em uma tomada e toma um choque, ela nunca mais fará isso – é a ação e reação. A virtude ética é adquirida pelo hábito; não nascemos com ela, mas nossa natureza é capaz de a adquirir e a aperfeiçoar. Segundo Aristóteles, os adultos podem moldar as crianças para que elas aprendam a perceber o espaço do outro e para que percebam que não são as únicas no mundo, que fazem parte de um todo. Dessa forma, elas desenvolverão um senso ético.

O primeiro conselho aristotélico é que se eduque, e isso não vale apenas para crianças. Em uma empresa, por exemplo, percebe-se que é necessário educar também os adultos, porque alguns destes pularam a fase de educar-se. Nem sempre é possível, mas é possível, sim, a educação dos adultos.

Transcrição feita e adaptada pelo Provocações Filosóficas do trecho da palestra: “Farmácia: Que Futuro Estamos Construindo?” XVI Encontro Paulista de Farmacêuticos.

Confira na íntegra:

Leandro Karnal (São Leopoldo, 1º de fevereiro de 1963) é um historiador brasileiro, atualmente professor da UNICAMP na área de História da América. Foi também curador de diversas exposições, como A Escrita da Memória, em São Paulo, tendo colaborado ainda na elaboração curatorial de museus, como o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo.

Graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e doutor pela Universidade de São Paulo, Karnal tem publicações sobre o ensino de História, bem como sobre História da América e História das Religiões.