“É muito curioso, e eu coloco isso como o sexto elemento retirado de Hamlet, que nesta peça esteja talvez o primeiro núcleo da autoajuda contemporânea. Polônio, um homem vazio, da retórica e cuja personalidade empolada ninguém suporta, dá ao filho os conselhos mais sábios, práticos e diretos para a felicidade.

Quando Laertes volta para estudar em Paris, Polônio lhe dá os seguintes conselhos aqui sintetizados:

  • Não expressar tudo o que se pensa;
  • Ouvir a todos, mas falar com poucos;
  • Ser amistoso, mas nunca ser vulgar;
  • Valorizar amigos testados, mas não oferecer amizade a cada um que aparecer em sua frente;
  • Evitar qualquer briga, mas, se for obrigado a entrar em uma, que seus inimigos o temam;
  • Usar roupas de acordo com sua renda sem nunca ser extravagante;
  • Não emprestar dinheiro a amigos para não perder amigos nem dinheiro;
  • E, por fim, ser fiel a si mesmo para jamais ser falso com alguém.

Com esses conselhos absolutamente lógicos e coerentes, é a primeira vez que a sabedoria é sintetizada em alguns versos, assim como é a primeira vez que alguém diz o princípio que, no futuro, se transformaria na gênese da autoajuda: ser fiel a si e então ser fiel a todas as pessoas.

Essa é uma ideia muito interessante porque é enunciada pelo homem mais estúpido da peça, que é Polônio, ou seja, ouça seus conselhos, mas não siga a sua prática.”

Transcrição feita e adaptada pelo Provocações Filosóficas do trecho da palestra: Hamlet e o Mundo Como Palco | Leandro Karnal

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