Cortella postou em seu canal um trecho de uma palestra em que ele fala sobre humildade e como identificar gente arrogante. Confira a transcrição abaixo.

“Em um mundo de mudanças você e eu ficamos envelhecidos com facilidade. Quem aqui dirige sabe muito bem que os carros têm para-brisa e retrovisor, e que o retrovisor é menor que o para-brisa, porque o passado é referência e não direção. Tem gente na vida que dirige com o retrovisor gigante e o para-brisa pequenino quando exclama frases como as seguintes: “Porque no meu tempo”, “Se eu pudesse” ou “Aqui não é mais assim”.

É necessário coragem, mas, acima de tudo, humildade. Humildade para saber que não sabemos todas as coisas, para saber que precisamos estar permeáveis àquilo que é necessário alterar. Não é tudo que é necessário ser alterado, mas aquilo que for preciso deve ser feito.

Sócrates é uma marca do pensamento filosófico a tal ponto que a filosofia antiga é dividida em pré-socrática, socrática e pós-socrática. Sócrates foi um exemplo de humildade em sua trajetória; ele não envelheceu a cabeça, mesmo tendo ficado idoso. Os arrogantes, por sua vez, são pessoas que pensam que sabem tudo e que não precisam aprender mais nada. O arrogante diz: “Tem dois modos de fazer as coisas, o meu e o errado”.

Em sala de aula, no primeiro dia de aula, pergunto se alguém já leu o livro do Sócrates, sendo que Sócrates não escreveu nada: tudo o que esse filósofo disse foi registrado nos livros de Platão por este autor. Nesse momento, eu poderia não perder a oportunidade de “pisar” nesse aluno, mas isso é antipedagógico e tolo; se eu quiser formar uma pessoa eu não posso humilhá-la, e então digo: “Talvez você tenha ouvido mal. Eu falei ‘Sócrates’ e talvez você tenha entendido ‘Sófocles’, porque não tem nenhum livro do Sócrates”. O aluno concorda que ouvira mal, mas quando a aula termina eu vou até ele e digo: “Nós dois sabemos o que aconteceu. Não faça isso. Fingir que sabe é uma tolice imensa num mundo de mudanças. Fingir que sabe o deixa despreparado”.

Eu poderia ofender o aluno em público: nos tempos ultrapassados, isso seria chamado de estímulo. Os professores dessa época remota distribuíam as provas falando as notas dos alunos em voz alta. Para quê? Há uma regra básica: corrija no privado e elogie em público. Alguém que quer formar o outro deve corrigir sem ofender e orientar sem humilhar. É um modo ultrapassado achar que se está estimulando as pessoas ao machucá-las. É como nas empresas: até um tempo atrás, aquilo que hoje é chamado, com razão, de assédio moral, era chamado de estímulo. Exemplo: “Se prepare, estou de olho em você, vai almoçar e depois a gente conversa”, dizia o chefe ao funcionário, que entrava em pânico. Isso era usual e agora não é mais permitido. Por quê? Porque fazer alguém sofrer, ser humilhado e ficar aterrorizado são coisas desnecessárias.

É necessário superar, inovar e transformar. A sorte segue a coragem.”

Transcrição feita e adaptada pelo Provocações Filosóficas do vídeo: Como identificar gente arrogante – Mario Sergio Cortella

Confira o vídeo:

Mario Sergio Cortella, nascido em Londrina/PR em 05/03/1954, filósofo e escritor, com Mestrado e Doutorado em Educação, professor-titular da PUC-SP, na qual atuou por 35 anos.

É autor de diversos livros nas áreas de educação, filosofia, teologia e motivação e carreira.