Embora atravessemos um momento de questionamento sobre o modelo político democrático – em que determinadas coordenadas se articulam para sustentar o Estado a partir de parâmetros específicos, como a participação popular por meio do voto – ainda não encontramos uma forma melhor de organizar a sociedade senão pela democracia representativa. É evidente que há problemas em sua estrutura, mas a intenção do texto não é esgotar a problemática, mas antes, direcionar-se para um dos elementos que compõem o problema: a mídia.

Sendo que as decisões políticas dentro dos quadros da democracia liberal passam, em alguma medida, pela opinião pública, é importante problematizar o que forma a opinião das pessoas. Em um contexto como o atual, de intenso fluxo de informações circulando em tempo real, esse questionamento torna-se ainda mais urgente e necessário.

Ainda que a circulação de informações não tenha sido inventada com a difusão da internet e das tecnologias da informação e comunicação, é preciso destacar que houve uma reorganização em torno do modus operandi pelo qual a informação circulava e formava a opinião pública. Se antes produzir conteúdo e difundi-lo dependia de grandes investimentos e uma equipe robusta trabalhando para isso, hoje um indivíduo pode sozinho, da sua casa, produzir conteúdo e atingir um número extraordinário de pessoas.

Ou seja, com o advento da internet e das novas tecnologias, houve uma maior democratização da informação, tanto na confecção quanto no acesso, haja vista que a produção de conteúdo, em tese, pode ser feita por qualquer pessoa com acesso à internet, bem como o acesso ao conteúdo produzido depende também apenas de acesso à rede. A informação, portanto, está por todos os lados e de diversas formas. Entretanto, será que a quantidade tem sido acompanhada de qualidade? E o objetivo de informar está sendo, realmente, cumprido?

Nesse ponto, parece se instalar um paradoxo, já que a maior produção de conteúdo e de acesso não tem correspondido a uma sociedade mais informada, conectada com a realidade vigente e com maior consciência histórica. O fenômeno das “Fake News”, elemento decisivo em eleições presidenciais recentes nos EUA e no Brasil, é bastante elucidativo em relação ao obscurantismo que a má informação pode gerar. O excesso de informação, sobretudo pela sua falta de qualidade e compromisso social, tem nos colocado em uma espécie de estado de êxtase, de modo que apenas assimilamos a informação (ou parte dela) e a reproduzimos sem nenhum tipo de criticidade.

No entanto, assim como a internet não criou a mediação entre criadores de informação e consumidores de informação, ela também não criou o que se chama hoje de “Fake News”. Desde que Gutemberg inventou a imprensa no século XV, notícias falsas e ideologizadas circulam a fim de atingir objetivos específicos, ou simplesmente angariar público e dinheiro.

O “Mercado de Notícias” – título de uma peça do século XVII, do dramaturgo inglês Ben Jonson, retomada pelo cineasta Jorge Furtado em um excelente documentário de 2014 – não é, portanto, algo novo. Todavia, a internet potencializou esse mercado e o transformou em algo extraordinariamente destrutivo para a opinião pública e, consequentemente, a democracia.

Diante do paradoxo de uma era da informação alimentando um tempo de ignorância, não é correto simplificar a problemática e demonizar a internet, as novas tecnologias, e atribuir-lhes a responsabilidade exclusiva por algo (a informação) que continua sendo produzido por humanos, ainda que as mídias tenham se transformado e, por consequência, as formas de construção dos textos, das ideias e das imagens que chegam ao público.

É preciso, ao contrário, ter atenção em relação aos meios circulantes da informação, mas sobretudo àqueles que produzem o conteúdo que alimenta esses meios. Com essa proposta de análise, busca-se levantar interrogações sobre o porquê de grandes portais de notícias construírem seus acervos com “notícias” totalmente irrelevantes; ao passo em que há um silenciamento sobre questões extremamente importantes, como a desigualdade social, o racismo, a homofobia, a violência contra mulher, os povos indígenas, sobre a memória da escravidão e da ditadura civil-militar, etc., que são tratadas de quando em quando como pequenas anedotas.

Sintetizando, o questionamento deve se direcionar de maneira mais incisiva sobre o fenômeno estapafúrdio de se publicizar o privado e privatizar o público. Isto é, transformar em notícia, em “informação”, questões de ordem privada de pessoas famosas, ao mesmo tempo em que pouquíssimo espaço é dedicado a se pensar de forma crítica as raízes de problemas que afligem a população. Além disso, problematizar o papel da grande mídia nessa caixa de pandora, já que não são apenas produtores de conteúdo individual que alimentam o caos da desinformação e da ignorância que nos atinge.

Uma reflexão profunda sobre o papel da mídia (jornais, rádio, televisão, internet, etc.) na sociedade contemporâneo é extremante importante, pois da invenção da imprensa pra cá, a circulação de ideias possui papel determinante na formação da opinião pública e nos rumos que sociedades tomam. Na conjuntura atual, em que a democracia se vê em crise, colocar no centro do debate a importância de uma mídia comprometida em criteriosamente produzir seus conteúdos e informar a sociedade é algo elementar se não quisermos continuar vivendo em bolhas, se alimentando de notícias falsas e/ou dispensáveis, e reproduzindo distorções históricas e tolices, que apenas confirmam o vazio intelectual que ronda nosso espírito e tem nos convertido em marionetes.

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