Em uma palestra para o Café Filosófico, Ivan Capelatto fala a respeito de uma condição do desejo chamada “desejo paradoxal” dentro do contexto de uma relação entre mãe e filha. Confira abaixo a transcrição do trecho da palestra.

“O desejo de ser desejado nos provoca uma reação muito complicada. Em 1977, o psicólogo americano Leon Festinger escreveu um livro muito importante chamado Dissonância Cognitiva. Logo em seguida, também nos Estados Unidos, Gregory Bateson começou a estudar a dissonância cognitiva à luz dos pensamentos do psicanalista Lacan e descobriu o que chamou de “desejo paradoxal”.

Um exemplo de desejo paradoxal seria uma mãe que tem uma filha de onze anos que come muitos hormônios distribuídos nas carnes, tendo desenvolvido, assim, s*ios proeminentes, além de já ter m*nstruado e estar muito bonita. A mãe tem muitos desejos em relação a sua filha: de um lado deseja que ela seja feliz, bonita, que encontre alguém que goste dela, que o marido dela seja diferente do seu etc., e do outro lado a mãe tem medo. O medo e o desejo são irmãos gêmeos, fazendo parte do mesmo composto.

A mãe tem medo de invejar a filha porque esta tem, aos onze anos, a mãe, o corpo, as roupas e a vida que a primeira gostaria de ter. O conflito entre esses dois desejos faz com que a mãe chegue até sua filha, quando esta está prestes a ir a sua primeira festa noturna, e lhe crie uma doença fatal em sua cabeça ao dizer-lhe o seguinte: “Filha, você percebe como você está bonita, desejável, s*xualmente bela, com o rosto, o corpo e as roupas bonitas… Qualquer homem gostaria de tê-la, mas eu gostaria de contar-lhe um segredo a respeito dos homens: eles são horríveis. Você pode perceber isso aqui em casa com o seu pai, avô, irmão, tio etc. Os homens desejam você apenas como um prazer e depois a deixam. Então, não permita que isso aconteça com você. Uma gravidez na adolescência seria tão ruim, e você é tão bonita!”

A filha cresce mais um pouco e vai a sua segunda festa noturna. E como ela é humana, além de ser invadida pela mídia, pelos amigos e pela cultura, ela também tem desejos e, naquele momento, ela ainda é “b.v.” (“boca virgem”), o que é algo complicado em sua escola, além de ela querer deixar de sê-lo. A mãe a chama novamente para conversar: “Filha, cuidado, você vai a uma festa, onde vai ter bebidas e homens!”

Um ano depois a garota está grávida e a mãe muito triste, pois o desejo desta se rompe, já que ela queria que a filha fosse feliz, estudasse, se casasse etc. Por outro lado, realiza-se o outro desejo da mãe: sua inveja acaba. A mãe comenta com as amigas: “Mãe tem sexto sentido; eu tinha certeza que ia acontecer de ela ficar grávida.”

Esse é o fenômeno que nos impede de atingir esta coisa nirvânica, religiosa e filosófica que é a felicidade. Nós somos reféns dos desejos do outro.

A garota hipotética estabeleceu em sua vida o desejo paradoxal. O que é o desejo paradoxal? O desejo mais profundo do ser humano é o desejo de ser desejado, então, se a filha realizasse o desejo de sua mãe de ser uma boa aluna, ser certinha, continuar virgem, b.v. etc., ela não precisaria mais da mãe. Porém, se a filha realizasse o medo (que é o outro desejo) de sua mãe, teria a esta por toda a sua vida.

O desejo paradoxal é a forma que nós utilizamos para colocar o medo que temos de perdermos o nosso composto de sermos desejados pelo outro.”

Transcrição adaptada pelo Provocações Filosóficas do trecho da palestra: O desejo e sua formação | Ivan Capelatto no CPFL Cultura.

Confira na integra:

 A mãe tem muitos desejos em relação a sua filha: de um lado deseja que ela seja feliz, bonita, que encontre alguém que goste dela, que o marido dela seja diferente do seu etc., e do outro lado a mãe tem medo. A mãe tem medo de invejar a filha porque esta tem a mãe, o corpo, as roupas e a vida que a primeira gostaria de ter. O conflito entre esses dois desejos faz com que a mãe chegue até sua filha e lhe crie uma doença fatal em sua cabeça.

Ivan Capelatto é psicólogo clínico e psicoterapeuta de crianças, adolescentes e famílias. fundador do grupo de estudos e pesquisas em autismo e outras psicoses infantis (gepapi), e supervisor do grupo de estudos e pesquisas em psicopatologias da família na infância e adolescência (geic) de cuiabá e londrina.

Mestre em psicologia clínica pela puc-campinas, é professor convidado do the milton h. erickson foundation inc. (phoenix, arizona, usa) e professor do curso de pós-graduação da faculdade de medicina da puc – pr. Autor da obra “diálogos sobre a afetividade – o nosso lugar de cuidar”.