Imagine se conseguíssemos perguntar a todas as pessoas se elas se sentem confortáveis no mundo. Eu acredito que a maioria responderia que não. E não é preciso um grande estudo para perceber a insatisfação de grande parte das pessoas pelo meio em que vivem. E não estou falando de classes sociais, da falta de acesso a saneamento básico ou qualquer outra necessidade mínima para a sobrevivência ou conforto. Eu imagino até que pessoas extremamente ricas também responderiam que não. O problema, na real, não parece ser o mundo, o planeta ou a sociedade em si, mas algo que cresceu nas últimas gerações dentro da mente das pessoas: uma ideia que gera comportamentos, pensamentos e raciocínios desconfortáveis para a própria existência humana.

Durante uma parte da era moderna, foi feito acreditar que todos poderiam ser felizes e que a felicidade poderia ser obtida como algo que se vai a um mercado e se pega em uma prateleira, como qualquer outra coisa no mundo moderno. Mas a felicidade não pode ser dada, nem comprada. A satisfação, o amor, o contentamento não são coisas que você pode simplesmente ter, comprar ou roubar. Elas dependem única e exclusivamente de quem você é, da maneira como pensa, das suas atitudes e das suas expectativas. O mundo é um martelo que molda nossas crenças e desejos. A vida é um moedor de sonhos e uma prensa de realidade que estampa na nossa pele, nos nossos corações e nas nossas mentes as nossas limitações, a nossa incapacidade.

As novas gerações perderam algo que as gerações passadas tinham: uma maior capacidade de enxergar o mundo como ele é, de ter expectativas reais, dentro das possibilidades e dos limites. A nova geração acredita que pode tudo, que o mundo deve a ela. Ela é protegida, mimada, fragilizada. Ela é tratada como incapaz, tanto pelos pais quanto pelas instituições públicas e pela sociedade. Tirou-se dela o direito de sofrer, de sentir dor, de se frustrar. E quando é privada do sofrimento e da frustração, ou quando a responsabilidade por isso é jogada para terceiros, a pessoa sempre acredita que o problema é o outro, a sociedade, o mundo. Nunca se coloca como parte do problema. E a vida moderna é algo como a língua dentro da boca: ela não nos incomoda no dia a dia, mas se paramos para pensar, sentimos o desconforto. Quando estamos em um ritmo mais lento, com mais tempo para refletir, percebemos que talvez não nos encaixemos no mundo como ele é. O resultado disso é avassalador.

Essa nova geração, incapaz de lidar com suas próprias angústias, com seus sentimentos, que foi prometida um trono dourado e que a felicidade poderia ser comprada em prateleiras de supermercado ou em pílulas ou fundos de garrafa, percebe que mentiram para ela. Percebe que foi enganada. Elas percebem que não têm como ser protegidas da realidade da dor e do sofrimento que vêm de dentro de suas próprias cabeças, mesmo que se escondam atrás de castelos de muralhas ou qualquer outro tipo de proteção física ou psicológica. Essa geração se tornou problemática, neurótica, e se sente o centro das atenções mundiais. Não dos problemas, mas acredita que, mesmo com pouco tempo de vida, sabe como resolver todos os problemas do mundo. Elas encaram a vida a partir do que sentem, e não do que pensam, ou da realidade em si. Se eu acredito que está certo, é porque está certo. Não cogito a possibilidade de estar errado. Não penso que o que acredito estar fazendo bem pode, na verdade, causar problemas e prejudicar os outros.

Essa geração acredita que deve mudar o mundo, terraformar o mundo para elas. Porque, se não se sentem bem com a realidade, com o mundo, com a sociedade, o mundo, a sociedade, a realidade devem mudar. O que elas não percebem é que o mundo não muda por ninguém. O mundo não se dobra a ninguém. O mundo é o que é. A realidade é o que é. E, se, geração após geração, criarmos homens e mulheres psicologicamente degenerados, sem valores, sem orientação, sem real distinção de certo e errado, de moral, de respeito, formaremos uma geração que não tem identidade, que acredita que pode acordar e ser o que quiser. E aí estaremos terraformando um mundo para idiotas.