“A vida do adulto, hoje, está muito chata. Muita gente não gosta de trabalhar onde trabalha, passou-se a acreditar na ideia de que podemos tudo, o Facebook e as redes sociais trouxeram a ilusão de que podemos estar em todos os lugares ao mesmo tempo e a felicidade é sempre comparativa.

Existe uma piada sobre um homem que pede constantemente aumento de salário para o seu chefe, e este sempre recusa o pedido, até que o homem faz a seguinte solicitação: “Então dá para diminuir o salário do meu colega de trabalho?” A felicidade é comparativa. Nas redes sociais, todo o mundo vê só alegria, gente bonita, maquiada e maravilhosa, e a felicidade comparativa fica menor.

O adulto está solitário, sem amigos, frustrado, via de regra não trabalha no que gosta, fica com inveja do filho e compra, com facilidade, a amizade do mesmo: paga, deixa e libera, tendo a ilusão de ter um amiguinho e deixando, em contrapartida, o filho órfão de pai vivo. Quem ganha com isso? Ninguém. A família perde, e quem paga as consequências é a sociedade, porque devemos ter a noção de que a criação de um filho irá impactar vidas.

Se o filho cresce com saúde mental, com valores, dignidade e escolhe uma profissão com brilho nos olhos, as consequências serão positivas. Quantas vezes não vemos, no próprio consultório, um menino escolhendo a profissão e dizendo: “Queria fazer tal faculdade porque dá para tirar uns três mil reais”. Profissão não é para “tirar”, profissão é para doar; profissão é para trazer ao mundo um serviço. Ninguém, por exemplo, no exercício de sua profissão, tem como função principal dizer o quanto está ganhando. A explicação de que a felicidade não está nas mãos de quem recebe (que isso é sorte) e, sim, nas mãos de quem doa, deve ser ensinada em casa, nas pequenas situações.

Certa vez, no consultório, eu vi uma menina de cerca de quinze anos que disse assim: “Minha mãe resolveu pagar de mãe do nada”. Muitas vezes há uma distância de anos entre pais e filhos, então essa mãe, após se aprofundar no assunto e perceber que precisa mudar de atitude, também percebe que não irá construir, de repente, um tecido de confiança com a filha, mas, ainda assim, é necessário insistir nessa construção. Só que, infelizmente, às vezes essa falta de confiança é irreversível.

Em educação, tudo o que é difícil fazer será ainda mais difícil se não for feito; não tem como terceirizar ou delegar a educação, e a maior autoridade de um pai e uma mãe é o amor. Se o filho não sente que o pai o ama e nem que se importa consigo, a relação de confiança fica impossível de ser construída. Hoje não há quem esteja tão ocupado que não possa ir um minuto ao banheiro e enviar uma mensagem. “Filha, boa sorte no balé, estou torcendo” ou “Filho, estou te ligando porque hoje você tem um jogo e pode ter certeza que estou aqui na reunião, mas meu coração está aí.” “Ah, mas meu filho está dormindo!” Acorde-o! É até melhor que ele perca uma hora de sono e ganhe o abraço dos pais. Acorde meia hora mais cedo e tome o café da manhã junto ao filho. É necessário construir laços; sem laços a vida vira um nó.

Transcrição feita e adaptada pelo Provocações Filosóficas do trecho do programa Todo Seu com Leo Fraiman.

Confira o trecho:

Leo Fraiman é psicoterapeuta, supervisor clínico e diretor da clínica Leo Fraiman de Psicoterapia e Gestão de Carreiras, também é especialista em psicologia educacional e mestre em psicologia educacional e do desenvolvimento humano pela Universidade de São Paulo (USP).