Leo Fraiman na participação do programa Todo Seu fala sobre educação dos filhos e os danos da superproteção e o mimo na vida da criança. Veja abaixo a transcrição da fala de Fraiman.

Hoje, há muitos casos de ansiedade, porque a criança não aprende a esperar, o adolescente não sabe esperar. O mundo é imediatista. Tudo que se quer, se tem; não tem a necessidade de se esperar nada. No Whatsapp, por exemplo, a mãe, desesperada para ser aceita (e não gerar frustração no filho) e para compensar uma culpa que não deveria existir, envia uma mensagem para o filho: “O que você quer comer? Filé à parmegiana, nhoque ou arroz e feijão?”. Isso quer dizer que algumas coisas não são para o filho decidir: algumas são para os pais, outras para os filhos, e outras não devem ser negociadas. Uma educação errada gera depressão, porque essa pessoa não vai ser grata a nada, não irá atrás de nada, então ela não saberá se frustrar.

A superproteção é um crime. Existe no direito uma figura chamada perda do direito de chance. Sobre uma pessoa que tem um problema que não foi detectado pelos pais ou pela escola, cabe sim (já existe jurisprudência para isso) que os pais e/ou a instituição escolar sejam acionados, porque aquela criança não foi bem-cuidada. Então, ela desenvolveu uma deficiência que foi imposta por quem cuidou dela. Isso é a perda do direito de chance. A moralidade, a maturidade e a cidadania residem basicamente no córtex pré-frontal do cérebro, pois é a área que faz com que uma pessoa tome uma decisão, é a área em que se cria o pensamento lógico, o freio dos impulsos. E o cérebro é movido por uso e desuso: três meses fazendo malabarismo deixa a parte do cérebro que cuida de movimento mais gordinha (assim como se treina o músculo por uso, se treina o cérebro usando-o). Resumindo: o pai e a mãe que superprotegem o filho estão distorcendo-o, criando uma deficiência no cérebro da criança. Assim, a arquitetura do cérebro não cria o quarto andar, que é o andar do “virar gente”.

Há muitos pais que dizem: “Mas eu não aguento, meu filho não tem limites”. É filho de quem? Quem o ensinou a não ter limites? É uma sacanagem o pai não criar um filho que se torne gente. Ele está prejudicando o futuro do filho, pois quem vai conviver com o filho? O futuro chefe, por exemplo. Já se pensou ser atendido num consultório por um médico mimado? Há pais que compram o vestibular do filho para que este estude Medicina, e o filho sai bradando que o pai comprara. Há professoras de pós-graduação que dão aulas para “moleques” de 25, 26 anos, e professoras de várias faculdades boas que recebem ligações das mães dos alunos questionando: “Por que meu filho foi reprovado? Por que não podem aceitar o trabalho dele? Coitado…”. Quer dizer, o pai e a mãe precisam tomar vergonha na cara, e vergonha na cara é sinal de saúde mental. Se alguém fizer uma grande besteira, fica vermelho. Por exemplo, alguém gosta de um vaso que não é seu e o leva embora, porque ninguém está vendo. Se ele não chegar em casa arrependido, se não tiver vergonha na cara, não pode se considerar gente, um cidadão. Seu raciocínio deve ser o seguinte: “Eu errei, então, amanhã, eu o devolvo. Eu peguei algo que não me pertence; se eu não tiver vergonha na cara, isso significa que eu não tenho saúde mental”. Por isso, o pai e a mãe (o tio, a avó) que mimam precisam ter vergonha na cara, porque estão roubando do filho o direito de virar gente, de virar um adulto seguro, de virar uma pessoa que responde pelas coisas que faz.

Transcrição feita e adaptada pelo Provocações Filosóficas do trecho do programa: Como brigar corretamente – Todo Seu (16/07/19)

Confira na íntegra:

Leo Fraiman é psicoterapeuta, supervisor clínico e diretor da clínica Leo Fraiman de Psicoterapia e Gestão de Carreiras, também é especialista em psicologia educacional e mestre em psicologia educacional e do desenvolvimento humano pela Universidade de São Paulo (USP).