Assim como o existencialismo, o niilismo não possui apenas filósofos como porta-vozes. Sua essência pode ser facilmente encontrada em diversas esferas, desde a literatura até o cinema, passando também pelos quadrinhos e até mesmo desenhos.

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Dentre tantas definições sobre o niilismo, a de André Cancian, em seu livro “O Vazio da Máquina” (2007) é bastante certeira ao dizer que “É possível que, por meio do pensamento, ao compreendermos nossa condição, venhamos a entrar num estado de luto pela ‘morte da realidade’, por assim dizer, já que para nós a realidade é nossa compreensão da realidade, e a destruição dos alicerces de nossa cosmovisão pode ser algo bastante difícil de administrar, sendo comum que haja episódios de ansiedade e angústia nesse processo indigesto”.

O autor ainda defende que “o sentimento de que tudo nunca passou de uma fantasia nos esmaga. A vida é um sonho dentro de uma máquina. Diante disso, ficamos atônitos, perplexos, e ‘luto’ é a melhor palavra que nos ocorre para descrever esse sentimento de que algo morreu. O modo como pensamos e encaramos o mundo corresponde exatamente ao niilismo, no qual tudo perde o sentido e a vida fica suspensa no nada, perfeitamente consciente de si mesma e de sua condição precária. A consciência da indiferença da realidade nos chega como algo corrosivo, como um silêncio que escarnece todos os nossos sonhos”.

Com isso, a maneira de lidar com o consequente efeito paralisante é, de acordo com Cancian, a rendição ao subjetivo. “Não há para onde fugir: temos de encarar nossa condição de existência em nosso elemento, a subjetividade. São nossas pequenas fantasias humanas que apesar de todo o nada, nos permitem levar a vida adiante, ainda que isso não faça sentido algum”.

Essa forma de encarar o mundo (e a si próprio) é abordada em diversas situações nos episódios Rick and Morty, série criada por Justin Roiland e Dan Harmon, que atualmente está em sua terceira temporada.
Com níveis altos de comédia, ficção científica e referências à cultura pop, a série rapidamente ganhou atenção do público, ao narrar as aventuras do cientista Rick (considerado o homem mais inteligente do universo) e seu neto Morty.

Já no primeiro episódio, o niilismo se faz presente em ao menos duas cenas. Em uma delas, há a crítica do niilismo à ideia de Deus quando Rick diz à sua neta “Não há nenhum Deus, Summer. É melhor acabar com isso logo, vai me agradecer depois”.

Em outra cena, Rick demonstra que o conhecimento o fez perceber diversas coisas, inclusive que o sistema educacional está ultrapassado e precisa ser repensado, ao dizer ao seu genro que “As escolas são uma perda de tempo, gente correndo para cima e para baixo. Um cara na frente diz ‘2 + 2’, um outro no fundo responde ‘4’… Não é um lugar para gente inteligente, Jerry”.

Já no episódio “Rixty Minutes” ocorre uma das cenas mais niilistas da série, no momento em que Morty diz à Summer “Ninguém existe de propósito. Ninguém pertence a qualquer lugar. Todo mundo vai morrer… Venha assistir TV”.
A cena pode ser facilmente relacionada com o trecho de Cancian em que ele fala sobre a importância de buscarmos, por meio de nossa subjetividade, algo que nos motive (ou ao menos distraia), mesmo que nada pareça fazer sentido.

Classificar Rick and Morty como um desenho niilista, no entanto, seria um erro. Isso porque trata-se de uma série tão abrangente, que passa por várias correntes filosóficas. Reúne, por exemplo, elementos do existencialismo e até mesmo pensamentos que se assemelham aos de Schopenhauer quando o assunto é amor.

Em algumas situações, ao falar do mundo em que vivem, os personagens ainda trazem concepções de Platão, apresentando algumas realidades como simulacros daquilo que é, de fato, verdadeiro.

Outro mérito do desenho é que leva conhecimentos de filosofia e ciência de forma divertida, desconstruindo o lamentável estereótipo de que esses assuntos são incompreensíveis e/ou entediantes. Se ainda não viu, veja na primeira oportunidade, pois vale a pena.