A vida é repleta de riquezas incontornáveis. Não aquelas compostas de ouro, prata ou bronze nem das preciosas notas de dinheiro que ao menor sopro voam pelo ar. São as feitas pelos pequenos elementos que em meio ao cotidiano acelerado se passam por puras “frivolidades” e “banalidades” as quais pouco dedicamos atenção. Elementos esses que vão desde a planta que cresce em meio à chuva e ao sol, passando pelos sorrisos, gritos e choros em paralelo de amigos, vizinhos e desconhecidos; e chegando até as águas que correm nos rios e lagoas e tentam resistir à poluição. É tudo aquilo que virou cenário das nossas vidas, e para os quais temos reservado cada dia mais esse papel: o de cenário. Um fundo que foi relegado à marginalidade de nossas ações principais, que consistem no contato intenso com a tecnologia e com a produtividade.

Acompanhados pela multidão, na verdade estamos a viver em verdadeiras ilhas desertas. Mas não aquelas paradisíacas dos filmes de náufragos: com flora e fauna coloridas, bichos falantes e cores a perder de vista. São ilhas secas, áridas e tristes. É o “eu” que está no ponto nodal delas e é o “eu” que as cerca desde as faixas de água litorâneas, como se mais nada existisse na vida além do ego. A pluralidade de coisinhas minúsculas do nosso viver não nos gera reflexão porque acostumamos a pensar que é só a grandiosidade e o excesso que devem despertar a atenção. Que devem prender e fazer brilhar os olhos. E parte dessa suposta grandiosidade é o nosso eterno devir em torno de si mesmos. Entretanto, perdemos muita coisa com essa apatia. Por exemplo, quando deixamos de olhar as nuvens e suas formas: o espetáculo que vem do céu e é extremamente acessível. Quem parar para olhar verá, acima de nós, uma verdadeira galeria de arte que não é de propriedade privada de um marchand.

Perdemos a beleza intensa da criação divina e a calma que ela nos transmite ao nos rendermos integralmente a imperativos técnico-instrumentais de existência. Constatamos, indubitavelmente, na menor sensibilidade ao pequeno e ao leve, que nossa função precípua na Terra não é só viajar a milhões de quilômetros em torno do Sol como grãos de areia desnorteados, mas também criar laços de solidariedade e fraternidade que nos permitam atravessar da forma mais magistral aqueles dias que nos restam e que estão passando no momento em que esse texto é escrito/lido. Provavelmente o maior carma da modernidade tardia é o desvio desse encontro da coletividade com os seus mais puros sentimentos e emoções para com o “outro”; tragédia propiciada pela radicalização da tradicional separação eurocêntrica entre natureza e cultura que ajuda a gerar, entre outras coisas, a crise climática e ambiental do século XXI. É esse paradigma pré-revolucionário que os chamados movimentos decoloniais tanto buscam superar.

Contemplar o vazio é uma arma. Se auto intitular nada ou ninguém, também pode ser, pasmem, uma arma. O oco da pureza deriva de uma simplicidade congênita a qual temos repetidamente nos negado ao acesso. A inutilidade, aparentemente detestável porque condenada socialmente, é na verdade o êxtase da não-captura estrutural. Metidos em um emaranhado de nomeações e relações, cremos na coerência dos nexos estabelecidos quando na verdade o sentido mesmo daquilo que se faz ou deixa de fazer só pode ser um significante que derrete/desmancha e escoa por vias sociais não muito claras. O “é” e o “não é” estão, desde a origem, em um mesmo tempo histórico complexo de onde não é possível depreender a essência de um mínimo natural explicável e traduzível – porém crucial para um respiro adequado.

Os dilemas e angústias nossos de cada dia são fruto, justamente, dessa eterna ignorância do mundo que deixou de nos tomar a atenção. Só é possível se aproximar de uma ontologia do social e dos seus objetos à medida que nos afastamos do engessamento proposital da materialidade. Nossa trajetória é trajetória de visita. Nosso tempo, cada vez mais escasso, é valioso, belo, monumental. Aquilo que ganhamos no simples ato de ver melhor o minúsculo vale mais que milhões. Nos desperta para o fato de que nem tudo está perdido, pois a esperança está guardada nos mínimos detalhes. Acumulada em diferentes sentidos, a plenitude se faz presente e é capaz de nos espantar continuamente por seus significados provisórios e vulneráveis ao espírito do tempo. Sentir é um verbo em abandono que precisa ser resgatado.

Recomendação Cinematográfica:

Título: Festim Diabólico
Direção: Alfred Hitchcock
Gênero: Suspense
Nacionalidade: EUA
Duração: 1h23min
Ano: 1948

Philip Morgan e Brandon Shaw estrangulam um amigo em comum, David Kentley, até a morte com um pedaço de corda. O objetivo do assassinato é promover um exercício de inspiração filosófica para provar que conseguem realizar o crime perfeito.

Recomendações de leitura:

“Dois Garotos se Beijando” de David Levithan

O livro conta situações envolvendo as vidas de Craig, Harry, Avery, Ryan, Peter, Neil e Cooper, interligados por sua sexualidade. Cada um desses meninos tem uma situação diferente. Alguns contam com o apoio incondicional da família, outros não. Alguns sofrem com o bullying na escola, outros, com o coração partido. Mas bem no centro de todas essas histórias paralelas está o amor. E, através dele, a coragem para lutar por um mundo onde esse sentimento nunca seja sinônimo de tabu.

“O Universalismo Europeu” de Immanuel Wallerstein

A retórica das potências dominantes para justificar seu império é o tema deste livro do sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein. Como os poderosos criam narrativas e conceitos que justificam ataques com interesses econômicos e geopolíticos contra outros países?

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Alberto Silva
Cientista Político, que carrega além das inquietações com a nossa sociedade e as formas de poder geridas a partir dela, um gosto pela escrita, pelas imagens e pelas diversas maneiras de expressão da beleza que está por trás do nosso interior.