Às vezes, parece que há certa melancolia por parte dos críticos em respeito ao advento de outros meios de comunicação que teriam vindo “competir” com a literatura, quando, em verdade, deveríamos nos contentar por toda evolução científica, tecnológica, artística etc. Se o ser humano não fosse curioso e nerd, nós ainda viveríamos nas cavernas.

A literatura não existe para competir com nada ou para ter o maior público. Sua função (se é que ela pode ser definida por uma única função) é muito mais profunda. O surgimento do teatro, cinema, tv, internet etc. apenas têm aberto as portas aos diversos meios de entretenimento, consciência e espaço para que as pessoas se expressem com o que elas se sentem mais à vontade. E tomara que um dia todo mundo tenha o seu lugar com o qual mais se identifica para a expressão de seu ser! Esses lugares só surgem através de luta. As mulheres antigamente, por exemplo, não podiam ir às universidades, não podiam entrar nas bibliotecas, não podiam ler alguma coisa e manifestar sua interpretação daquilo… Em suma, as mulheres que pensavam eram condenadas de várias maneiras. Por isso temos de honrar esse direito que conquistamos arduamente. Porque a inteligência feminina sempre foi perigosa.

Os diversos meios de comunicação, acredito, vão continuar sendo inventados, e é importante que não exista nenhum sentimento de competição entre eles, e sim respeito pela conquista do espaço de cada um.

Antigamente, por exemplo, por volta do século XIX, uma das poucas formas de entretenimento e diversão era a literatura. É como se fosse as novelas e séries de hoje. Todos nós somos extremamente ligados em histórias, e às vezes nem nos damos conta. Isso porque elas são a representação da vida real, da vida que sonhamos ou de uma possível vida futura. Então conhecer uma história diferente, seja através de um filme, gibi ou livro, nos permite analisar nossa própria história de um ponto mais distante e, portanto, mais amplo. No fundo, estamos encarando nosso próprio mundo de uma perspectiva diferente. Por isso amamos tanto a cultura das histórias.

Imagem por: Caroline Fortunato

Em relação à Literatura, o que me incomoda é que ela sempre foi um material da elite. Vocês acham que é à toa a impopularidade da literatura entre o povo e a sua popularidade entre o pessoal mais rico e de maior escolaridade? É só um meio esperto de impedir a interação do povo com a literatura para continuarem nos controlando. Então eu acredito que todos nós devíamos fazer um esforço para encontrar nosso lugar como leitor – e até como autor – na literatura, mas isso tem de ser feito com sinceridade, e não como afirmação de sua intelectualidade e “superioridade.” Você vai se apaixonar por certos autores e histórias, e esses não precisam ser os ditos consagrados, as grandes “pérolas” da literatura. Você tem que ter coragem de descobrir o que você realmente gosta, com o que você de fato se identifica e então transformar isso em grito.

E, por fim, digo que a literatura vale à pena por ser mais um caminho de você entrar em contato consigo mesmo. O grande sabor da vida é a gente se experimentar de todos os modos possíveis, e a literatura é apenas um desses modos. Pois através dela você explora sua imaginação, criatividade, reação frente a várias emoções, descobre várias coisas sobre si mesmo e desfruta um pouco mais da própria amizade, pois nesse momento é apenas você e a genialidade de sua mente. É algo fascinante o seu corpo estar em paz e sua mente provando tantas coisas novas; se expandindo.

A literatura é um ato de rebeldia, pois crescemos com a ideia de que ela não é para qualquer um, que nem todos conseguem entendê-la ou lidar com ela. E isso é mentira; é limitar a inteligência e autoconfiança das pessoas! A realidade é que você não vai gostar de todo livro, todo filme ou obra de arte com a qual entrar em contato. Mas aquelas de que você gostar verdadeiramente vão te enriquecer, expandir suas ideias e te fazer sentir maior, pois você terá vencido algo que a sociedade diz que você não era capaz, especialmente sendo das classes mais desfavorecidas socioeconomicamente. Pois a arte é universal, então todo mundo tem um lugar nela: só precisamos desbravar esse espaço que é nosso. E ficamos tão emocionalmente poderosos com a experiência que saímos da caixinha em que normalmente vivemos. Tudo isso são mecanismos para conhecer ao mundo e a si mesmo de um jeito mais acolhedor. Façam bom proveito!

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Caroline Fortunato
Autora de "O Lado Real do Abstrato." Nascida com a maldição da Literatura ao mesmo tempo em que salva por ela.

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