“Sobre a necessidade de reflexões e mudanças em relação à responsabilidade centrada na figura materna, há um tempo, quando começamos a questionar a diferença fundamental entre ser homem e ser mulher, o lugar do homem e o da mulher, nós começamos a abrir espaço para algo muito bonito, que é a inserção da mulher no mercado de trabalho, sua inserção no ato de votar, ou seja, a inserção da mulher no espaço humano ao qual ela pertence. Mas nós desprezamos, neste momento, a ideia de que a mulher pode, em algum momento de sua vida, além de ser médica, juíza, psicóloga ou balconista, desejar ser mãe.

Existe um espaço fundamental entre ser mulher e ser mãe. Ser mãe é outra entidade; é uma mulher com um desejo a mais em sua vida, desejo este do qual ela irá cuidar.

Há um tempo algumas pessoas começaram a colocar a mãe como um mito: não existe mãe, ou seja, qualquer um pode cuidar do filho. E hoje a resposta que o mundo dá a esses escritos complicados sobre tal mito são as crianças que estão na Fundação Casa, as crianças que estão se suicidando, crianças que estão roubando etc.

Em um momento as crianças ficam nos braços de suas mães e, logo depois, saem desses braços e vão para os braços de desconhecidos, tendo seus cuidados terceirizados aos cuidados de creches, vizinhos, avós etc. Então elas perdem a chance de constituírem a estrutura mais fundamental, que é o self.

Existe o mito da mãe? Não. Existe a mãe que escolheu a responsabilidade materna e existe a mulher, porque depois que essa mãe conseguir passar o primeiro ano de nascimento do filho junto ao mesmo ela voltará a trabalhar e a fazer suas demais atividades. Nós, por outro lado, temos que garantir que as mães tenham seus direitos.

A mãe suficientemente boa é aquela que faz as coisas para ela, mas que não se distancia do filho – não se distancia mais do que quatro ou cinco horas por dia. A mãe é aquela que tem o holding, é aquela capaz de abraçar.”

Transcrição feita e adaptada pelo Provocações Filosóficas da palestra: Responsabilidade: uma virtude psíquica ou uma aquisição cultural? – CPFL Cultura com Ivan Capelatto.

Confira o trecho da palestra:

Você também pode conferir a palestra na integra:

Ivan Capelatto é psicólogo clínico e psicoterapeuta de crianças, adolescentes e famílias. fundador do grupo de estudos e pesquisas em autismo e outras psicoses infantis (gepapi), e supervisor do grupo de estudos e pesquisas em psicopatologias da família na infância e adolescência (geic) de cuiabá e londrina.

Mestre em psicologia clínica pela puc-campinas, é professor convidado do the milton h. erickson foundation inc. (phoenix, arizona, usa) e professor do curso de pós-graduação da faculdade de medicina da puc – pr. Autor da obra “diálogos sobre a afetividade – o nosso lugar de cuidar”.