Deus não pode ser descrito como bom ou ruim. Essas categorias são humanas, limitadas à nossa compreensão e à nossa experiência. Um homem pode ser bom ou ruim, mas Deus transcende essa dicotomia. Ele não se encaixa nas definições que fazemos da moralidade humana. As nossas referências de bondade e maldade não se aplicam ao divino. Quando falamos de Deus como sendo bom, estamos apenas utilizando um termo humano para tentar descrever algo muito maior, algo que está além da nossa capacidade de entendimento.

Em um ditado esotérico que desafia muitas crenças religiosas, afirma-se que “Deus jamais perdoa porque jamais se irrita”. Para perdoar, é necessário que nos sintamos atingidos ou feridos de alguma forma. O perdão é, assim, uma resposta a uma ofensa, um reflexo de um sentimento de indignação. Mas, se considerarmos o vasto e infinito universo, como seria possível um ser tão grande e absoluto se sentir pessoalmente ofendido por um ser tão pequeno como nós? Nossa existência não pode, de fato, impactar o divino de maneira tão significativa. Para Deus, as pequenas ofensas humanas são irrelevantes, assim como a irritação que sentimos ao lidar com uma formiga.

Quando dizemos que “Deus é bom” ou “Deus é amor”, estamos, de certa forma, tentando aplicar nossas noções humanas de bondade e afetividade a algo que está além de nossa compreensão. A nossa mente limitada não pode entender o absoluto. A bondade que atribuimos a Deus é uma referência para tentar fazer sentido do que não podemos compreender completamente. Mas Deus é muito mais do que isso. Ele não se encaixa em nossas categorias de “bom” ou “ruim”. Ele está além dessas definições.

Além disso, é importante entender que o conceito de “bom” varia conforme a cultura. O que é considerado bom em uma sociedade pode não ser visto da mesma forma em outra. Por exemplo, o que para algumas culturas pode ser considerado “liberação” de certos comportamentos, pode ser visto como “repressão” em outras. E essa dicotomia se aplica em várias esferas da vida humana. Assim, o que é considerado “bom” ou “certo” por um indivíduo ou uma cultura pode não ser universal.

Quando falamos sobre Deus, não estamos nos referindo a um ser bom ou mau, mas à consciência cósmica à qual todos pertencemos. Somos parte desse infinito, mas não podemos compreendê-lo completamente. Nossa experiência humana é limitada, e tudo o que sentimos e pensamos é apenas uma tentativa de traduzir essa imensidão em palavras. Quando dizemos que “Deus é grande”, o que queremos dizer com isso? Qual seria o tamanho de Deus? Sua altura, largura e profundidade? As palavras que usamos para tentar descrever Deus são limitadas. Elas se baseiam em referências humanas que não são adequadas para capturar a verdadeira essência do divino.

A tendência humana é criar estereótipos sobre o divino. Muitas vezes, imaginamos Deus como um homem branco, com barba, sentado em um trono, julgando os outros. Mas essa visão de Deus é uma construção limitada, baseada em estereótipos culturais. Se viajarmos para diferentes partes do mundo, como a África ou a China, veremos que as percepções sobre Deus variam amplamente. Deus não se define por essas construções culturais ou visões limitadas que criamos.

Quando a Bíblia diz que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, não está se referindo à aparência física, mas à essência, à energia que nos conecta com o divino. Nossa aparência física é apenas uma referência temporária e passageira. O que realmente importa é a nossa essência, a nossa conexão com o que é maior.

Mestres espirituais ao longo da história, quando questionados sobre Deus, muitas vezes escolhiam o silêncio como resposta. Como podemos, com nossas palavras limitadas, explicar algo tão vasto e absoluto? O silêncio, muitas vezes, é a resposta mais sábia, pois nenhuma explicação humana pode captar o infinito. Quem tenta descrever Deus com palavras ainda não entendeu Deus, pois está tentando forjar uma imagem do divino, limitando-o a uma concepção que não pode ser compreendida pela mente humana.

Diante dessa realidade, qual é o melhor caminho para tentar entender o divino? O caminho está no autoconhecimento e no crescimento interior. À medida que crescemos espiritualmente, ampliamos nossa capacidade de perceber o que é o “alto”, o que é o divino. Mas, devemos ter em mente que nunca entenderemos tudo. Como Paulo de Tarso disse: “Quando eu era criança, via as coisas como criança. Agora, como homem, vejo com mais clareza.” Somos como crianças diante do infinito, tentando compreender algo que está além da nossa capacidade de entendimento. À medida que amadurecemos espiritualmente, nossa compreensão vai se ampliando, mas ainda assim, nunca será total. O infinito continuará sendo incompreensível, pois nossa visão permanece limitada pela nossa natureza humana.

Texto produzido pelo Provocações Filosóficas baseado nas falas de Wagner Borges.