Imagem por: Caroline Fortunato

Por que eles existem aos montes se o que caracteriza a humanidade é a diversidade? Em minhas reflexões rudimentares, acredito que seja pelo seguinte: não existe ou irá existir uma pessoa “ideal.” E a sociedade nos ensina a ser competitivos, a não reconhecer o brilho alheio por achar que este ofusca o nosso, ensina a inveja dentre outros tantos sentimentos mesquinhos. Assim, com a necessidade de estar sempre diminuindo o próximo, critica-se então qualquer característica deste, criando um padrão e classificando-o fora de tal. Os fins dos padrões são um ato insano de querer crescer dentro de si da forma mais vazia e melancólica possível. Pois estando dentro de dado padrão uma pessoa pode criar a ilusão de ser “maior.”

Até mesmo grupos e movimentos que criticam os padrões, denunciam preconceitos e muitas vezes adotam determinada posição política acabam criando um novo padrão de pensamento e comportamento, muitas vezes exaltando-se, pois estão tão certos de seus pensamentos evoluídos (que contrariam todo o andamento errado da sociedade até então) que acabam querendo impor aquilo que eles têm certeza de estar certo, de ser moderno, de ser o novo projeto para uma sociedade melhor. Contudo, o ato de ouvir o outro está se acabando. Não há mais compreensão nas pessoas: um discurso que não entenda muito bem os movimentos mais modernos, por exemplo, com alguns pensamentos ainda conservadores (mas claramente procurando evoluir), faz com que o dono desse discurso seja acusado de inúmeras coisas e até ridicularizado. É legal o senso crítico das pessoas (que às vezes me falta por ingenuidade ou distração), mas falta nele muita compreensão pelo próximo, a meu ver.

Imagem por: Caroline Fortunato

E não estar dentro de um padrão faz um indivíduo sofrer deveras. Especialmente em padrões grandes, muito bem estabelecidos. Eu, particularmente, sempre me senti dentro de vários padrões. Porém, até então, me sentia anormal por ser a “estudiosa” da família que resolve abandonar sua cidade pequena para ir estudar na capital, por ser pobre num espaço de elite, por me identificar fortemente com o demissexualismo e por minha personalidade de fato bipolar. Mas acabo de me dar conta que esses são apenas alguns padrões nos quais eu não me encaixo – acredito que todo mundo saia de algum padrão, por mais leve que seja ou por mais que a pessoa queira se encaixar. E eu já sofri muito por conta dessas e outras situações. Só que a gente conhece o sofrimento apenas do padrão do qual a gente não faz parte. Dos outros não temos ideia se não estamos na pele do grupo oprimido. Pelo contrário. Às vezes somos até o agressor de tal grupo. Direta ou indiretamente.

E tudo o que foge aos padrões vigentes da época é considerado loucura. Certa vez uma professora contou a história de uma mulher que trabalhava, tinha seu próprio dinheiro e queria viajar. Só que seu pai não estava disposto a ir com ela e ela não era casada, ou seja, não havia nenhum homem para acompanhá-la. E mulher não viajava sozinha. Mas ela, muito bem-resolvida e independente, decide ir mesmo assim. Então é considerada louca e internada num hospício. Essa história, se não me engano, é de algumas décadas atrás.

Não obstante, temos de sempre procurar manter a plenitude de nossa serenidade em relação a essas pressões e opressões. Pois o mundo é em 1ª pessoa, então nossa mente costuma criar tempestades que na maioria das vezes não coincidem com a realidade. Por ser em 1ª pessoa, frequentemente esquecemos de nos afastar de nós mesmos, de nossas vidas, para, ao invés de julgar ou tomar decisões precipitadas, buscarmos visualizar a situação sob uma perspectiva mais realista, sólida e ampla.

 

 

RECOMENDAMOS


Caroline Fortunato
Autora de "O Lado Real do Abstrato." Nascida com a maldição da Literatura ao mesmo tempo em que salva por ela.

COMENTÁRIOS