Em meio a tantas obras notáveis do autor britânico Neil Gaiman, talvez Sandman seja a mais completa delas, inclusive do ponto de vista filosófico. Ao longo de 75 revistas em quadrinhos (até agora!), divididas em 10 arcos, conhecemos um universo rico em mitologias, referências e reflexões acerca de grandes temas da humanidade.

A história tem como protagonista o Sonho, que ao lado de seus irmãos (Destino, Morte, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio) forma o grupo dos Perpétuos.

A narrativa é complexa, bem elaborada e mais parece uma obra literária do que uma HQ tradicional. Talvez por isso tenha sido descrita como “história em quadrinhos para intelectuais” por um dos principais nomes do jornalismo literário, o estadunidense Norman Mailer, premiado duas vezes com o Prêmio Pulitzer.

Ao longo da história, Gaiman transforma personagens como deuses, demônios e fadas em seres demasiadamente humanos, como dissera Nietzsche. Faz isso ao demonstrar conflitos internos, a relação entre vontade e obediência civil e o relativismo entre o que é certo e o que é errado.

Em determinados momentos, evidencia-se a ideia (também de Nietzsche, no livro Além do bem e do mal) de que o certo e o errado muitas vezes são construções sociais válidas para uma cultura, mas não para outras.

E por falar em mal, Lúcifer (personagem que inspirou a série da Fox/Netflix) é um dos maiores responsáveis por reflexões filosóficas em Sandman. É ele, por exemplo, que diz ao Sonho que as pessoas na Terra mantêm o hábito de culpar o diabo por suas falhas unicamente para não admitir as suas próprias responsabilidades.

Também é ele que defende a ideia de que se as pessoas são boas unicamente porque temem uma punição divina, então elas não são boas de fato.

Ambas as ideias apresentadas por Lúcifer são debatidas pelo filósofo Arthur Schopenhauer em sua mais importante obra: O mundo como vontade e representação.

Também foi Schopenhauer que defendeu a ideia de que a morte deve ser encarada como algo mais leve, natural e até mesmo capaz de nos incentivar a ser quem realmente somos. E é exatamente assim que a personagem Morte aparece em Sandman, ao fugir totalmente do estereótipo de cruel, triste ou vingativa.

Com bom humor, empatia e sabedoria, a Morte rapidamente se tornou uma das mais queridas personagens de Sandman, tanto que ganhou histórias, minisséries e encadernados exclusivos.

Por fim, cabe destacar os pensamentos existencialistas quase sempre presentes no protagonista Sonho. Bastante melancólico, ele demonstra uma constante preocupação diante de um universo que, aos seus olhos, beira o absurdo. Muitas de suas falas soam como as de um personagem saído de alguma obra de Sartre ou Kafka.

Sandman se coloca como uma completa e desafiadora história em quadrinhos, em que o enredo não vem para nos entreter, mas sim para nos convidar a refletir e repensar o mundo que nos cerca.

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