No ambiente de trabalho moderno, o controle excessivo sobre interações humanas pode gerar uma cultura de paranoia. Quando tentamos combater o preconceito e a violência de forma extrema, criamos novas formas de sofrimento. Luiz Felipe Pondé traz uma reflexão sobre o tema.

No evento em que participei, estávamos em uma mesa, e uma pessoa que estava conosco mencionou que a intenção era criar um ambiente de trabalho completamente respeitável, onde ninguém tocasse em ninguém. Segundo essa pessoa, se você tocar em alguém, isso já poderia ser um indício de assédio moral ou sexual. Ela afirmou que, no futuro, quando o Brasil se tornar civilizado, o ideal seria que ninguém tocasse em ninguém no ambiente de trabalho.

Eu, pessoalmente, acho que isso é uma paranóia. Afinal, para nós, brasileiros, é comum tocar nos outros, e isso não significa, necessariamente, que você queira levar a pessoa para a cama. O que se está fazendo, na verdade, é criar mecanismos de controle do comportamento, algo que também acontece no mundo corporativo e nas escolas. Está se criando uma cultura paranóica.

Nos Estados Unidos, por exemplo, essa cultura já está muito presente. Muitos professores não falam mais com alunas em portas fechadas, porque podem ser acusados de algo. A solução é manter tudo totalmente transparente e controlado, já que há problemas e a ideia é tentar resolvê-los criando um ambiente de controle. Mas esse ambiente acaba gerando um universo paranoico. E, no fundo, esse universo pressupõe que existam vítimas, pessoas vulneráveis, que não podem ter estresse e não podem ser desafiadas, criando uma sociedade onde, muitas vezes, não se pode mais discutir certos assuntos.

Esses métodos paranoicos têm raízes no politicamente correto, que, em minha visão, é uma forma de destruir a carreira de quem você não gosta. No contexto acadêmico, politicamente correto é um truque que serve para silenciar quem pensa de maneira diferente. Na mídia, é uma forma de criar medo em quem escreve ou se expressa, já que qualquer palavra dita de forma inadequada pode ser alvo de processos. Isso faz com que as pessoas se autocensurem, pois ninguém sabe o que pode acontecer se usar a palavra “errada”. Por exemplo, uma pessoa pode ser processada só porque usou a palavra “azul”, que em algum contexto pode ter um significado negativo para alguém.

É importante combater o preconceito e a violência, mas as formas de combate não podem se transformar em medidas que criam um controle excessivo e distorcido da sociedade. Por exemplo, em alguns países da Europa, há leis que proíbem os homens de abordarem as mulheres nos bares, porque, se o fizerem, podem ser acusados de assédio. Isso cria uma situação onde os homens preferem nem falar com as mulheres, para evitar qualquer tipo de acusação. Quando esses europeus vêm para o Brasil, acham tudo maravilhoso, porque aqui, no Brasil, as interações humanas ainda são mais espontâneas.

Um filósofo alemão que esteve aqui me disse que a impressão dele sobre o Brasil era de que vivemos como numa arena romana: uma vida breve, bruta, violenta, mas cheia de energia. Ele comparou a Europa a uma autoestrada, onde todos estão se movendo rapidamente, mas sem saber para onde estão indo, enquanto aqui no Brasil, estamos todos conectados pela vida, e isso torna tudo mais intenso.

Isso não significa que a violência no Brasil seja boa, ou que as soluções para o sofrimento não sejam necessárias. O problema é que, quando tentamos resolver tudo de forma extrema, acabamos criando novas formas de dor e sofrimento. Criar regras rígidas para controlar o comportamento das pessoas, como a ideia de que alguém só pode ser considerado inocente se for uma vítima, acaba gerando mais problemas do que soluções.

No final, a solução para tudo não está em criar um ambiente onde ninguém pode mais falar ou interagir de forma genuína. O que precisamos é de um equilíbrio saudável, onde as questões sociais sejam abordadas sem criar um sistema de controle excessivo, que só gera mais paranóia e medo.

Transcrição feita e adaptada pelo Provocações Filosóficas do trecho da Palestra “Dor e mudança: a cultura da vitimização” ministrada pelo filósofo Luiz Felipe Pondé, em Maringá-PR, no Teatro Marista, no dia 12/07/2017

Confira o vídeo:

 

Luiz Felipe Pondé, possui graduação em Filosofia Pura pela Universidade de São Paulo (1990), mestrado em História da Filosofia Contemporânea pela Universidade de São Paulo (1993), DEA em Filosofia Contemporânea – Universite de Paris VIII (1995), doutorado em Filosofia Moderna pela Universidade de São Paulo (1997) e pós-doutorado (2000) em Epistemologia pela University of Tel Aviv.

Atualmente é professor assistente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professor titular da Fundação Armando Álvares Penteado.