
Há algo curioso sobre a felicidade: a felicidade plena provoca uma inveja terrível. É insuportável para muita gente ver alguém realmente bem. Pense, por exemplo, em quando uma pessoa larga um casamento, encontra alguém novo e passa a viver intensamente, cheia de carinho, afeto, desejo e atenção. Isso incomoda profundamente. As amigas pensam: “Que ódio não estar ali. Eu vacilei, não tive coragem…”. A felicidade do outro vira um espelho das próprias frustrações.
Como dizia Nelson Rodrigues, a felicidade alheia é quase uma provocação. Ele dizia que o brasileiro não perdoa quem é muito feliz, quem encontrou amor, quem vive com intensidade. Isso incomoda porque denuncia a covardia dos que não tiveram coragem de viver o mesmo. A alegria do outro escancara as nossas renúncias, os medos, aquilo que deixamos escapar.
Vivemos num tempo em que pessoas muito felizes em público parecem quase cometer um “crime de desigualdade afetiva”. É como se ser mais feliz do que os outros fosse socialmente ofensivo.
Eu me lembro de um filme com o Alan Arkin. Ele interpretava o gerente de uma loja de carros. Um dos funcionários era extremamente feliz: vendia bem, era simpático, vivia de bom humor e, toda sexta-feira, levava flores para a esposa, com quem era casado havia uns 10 ou 15 anos.
O chefe não aceitava aquilo. Pensava: “Não é possível, ninguém normal leva flores para a mesma mulher depois de tantos anos”. Ele chega a investigar, certo de que as flores eram para uma amante. Mas não. Eram para a esposa mesmo. Ela o recebia na porta, abraçava, beijava… e aquilo destruía o chefe por dentro.
A felicidade do outro virou uma agressão. Até que ele consegue provocar a demissão do funcionário. E comemora: “Agora sim a vida dele vai desmoronar”. Sem emprego, sem dinheiro, sem flor, sem casamento.
Passa um tempo e ele encontra o ex-funcionário em um bar. E o sujeito está ainda mais feliz. O chefe, indignado, vai tirar satisfação. E o cara agradece. Diz que a demissão foi a melhor coisa que lhe aconteceu: ele e a esposa finalmente abriram o próprio negócio, trabalham juntos, ganham mais e são ainda mais felizes. O chefe entra em colapso. Nem destruindo o outro conseguiu diminuir a felicidade dele.
E isso tudo fica mais evidente no nosso tempo de celular e redes sociais. Hoje, ver um casal demonstrando muito afeto em público incomoda profundamente. Um casal se agarrando, se beijando, vivendo intensamente, causa mal-estar. As pessoas olham e pensam: “Tem algo errado aí”. Talvez porque vivemos uma certa anemia do desejo. Falta intensidade, falta coragem de sentir, falta entrega.
No fundo, o incômodo com a felicidade do outro diz menos sobre o outro… e muito mais sobre nós.
Transcrição feita e adaptada pelo Provocações Filosóficas do trecho da entrevista de Luiz Felipe Pondé ao Programa Entre Páginas – Rádio Metrópole – 2017
Veja na íntegra:
Luiz Felipe Pondé, possui graduação em Filosofia Pura pela Universidade de São Paulo (1990), mestrado em História da Filosofia Contemporânea pela Universidade de São Paulo (1993), DEA em Filosofia Contemporânea – Universite de Paris VIII (1995), doutorado em Filosofia Moderna pela Universidade de São Paulo (1997) e pós-doutorado (2000) em Epistemologia pela University of Tel Aviv.
Atualmente é professor assistente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professor titular da Fundação Armando Álvares Penteado.
Pessoas que parecem felizes nos incomodam, gente de bem com a vida causa muitas vezes um mal estar nos demais. Felipe Pondé brinca dizendo que, demonstrar felicidade em público um dia será crime de desigualdade afetiva. Confira!





















