
Por que as pessoas ainda têm filhos? Essa não é uma pergunta simples de responder. Não é só por causa do ato sexual ou de uma condição natural da existência. Hoje, nós temos acesso quase infinito à informação e a contraceptivos que nos alertam o tempo todo sobre as consequências, os desafios e as dificuldades de se criar e educar uma criança. E, mesmo assim, ainda se vê em grande escala homens e mulheres se permitindo, ou simplesmente não se cuidando, a ponto de deixar filhos virem como vierem, mesmo quando suas situações pessoais, financeiras ou emocionais não correspondem nem de longe às necessidades de educar e suprir aquilo que uma criança precisa. Nesse movimento, aumenta cada vez mais a parcela de crianças que, geração após geração, crescem em lares desestruturados, em famílias desequilibradas e sem receber do pai ou da mãe a educação de que realmente precisam.
Geralmente, o mais óbvio que se pensa é no custo financeiro. E, de fato, hoje é extremamente caro criar um filho. Porém, algo de tamanha importância, e que pode até ser mais decisivo do que a capacidade financeira de prover, é a capacidade de educar. A capacidade de educar uma criança está diretamente ligada à estrutura psicológica, intelectual e cultural dos pais. Quando um pai e uma mãe não são indivíduos bem estruturados emocionalmente, intelectualmente e psicologicamente, tornam-se realmente incapazes de dar aos seus filhos a educação necessária. Ao longo da história, as necessidades fundamentais das crianças não mudaram tanto. A dificuldade para cuidar de filhos continua existindo. O que parece ter mudado, em muitos casos, é a capacidade dos próprios pais de tomar conta de seus filhos.
Como é que uma mulher ou um homem que não praticam, em suas próprias vidas, limites, verdade, valores, virtudes e crescimento pessoal podem ensinar isso aos próprios filhos ou servir de influência para eles? Nós raramente conseguimos transpor para outras pessoas, principalmente para aquelas que vivem em nosso convívio pessoal, aquilo que não somos. A maior parte da educação dos filhos é dada pelo exemplo. Um filho que vê pai e mãe brigando dentro de casa, se desrespeitando, que não vê exemplos de valores, de família ou de escrúpulos, tende a repetir justamente o que vê e a tratar aquilo como direção e verdade em sua vida.
A incapacidade dos pais de tomar conta dos próprios filhos é tão prejudicial que não afeta apenas a vida dos pais e dos filhos, mas também a sociedade inteira. Pais e mães incapazes ou simplesmente preguiçosos, que mesmo tendo a oportunidade de tomar conta de seus filhos terceirizam a educação deles, estão abrindo mão diretamente de guiá-los e dar-lhes direcionamento. Com desculpas de que é necessário trabalhar, ganhar dinheiro, prover aulas de inglês, academia, lutas, cursos e mais cursos, acabam retirando da criança aquilo de que ela mais precisa: presença.
É difícil incutir na cabeça de muitos pais que presentes não substituem presença. A necessidade dos filhos de conviver com os pais é, muitas vezes, muito mais importante do que gastar cada vez mais tempo trabalhando e deixar a criança nas mãos de terceiros para que estes façam parte da sua educação. Como se não bastasse, é cada vez mais raro o tempo de qualidade com os filhos. Muitos pais não têm mais capacidade, disposição ou interesse de dar limites, de se interessar pelo que os filhos fazem, por como estão suas vidas, pelo que escutam, com quem conversam e pelo que se interessam.
Ao abrirem mão disso, dão espaço para que os filhos sejam expostos a situações às quais não deveriam ser expostos, a pessoas com quem não deveriam ter contato, a coisas que não fazem parte da sua idade, a perigos, mentiras e enganações, muito antes de terem maturidade ou discernimento para entender que aquilo pode ser prejudicial.
Muitas vezes, pelo simples fato de não suportarem a rejeição dos próprios filhos, os pais deixam de agir como pais e passam a se comportar como amiguinhos. Não colocam limites, não educam, não ensinam, não cobram, não mostram consequências e não expõem os filhos à frustração. Deixam de exercer aquele que talvez seja o papel mais essencial na vida de uma criança e terceirizam completamente o tempo, a educação, os valores e até parte da identidade dessa criança para qualquer coisa ou qualquer pessoa que tenha acesso a ela.
Poucas coisas podem ser tão prejudiciais na vida de uma criança quanto isso. Por preguiça, incapacidade ou falta de disposição para assumir o próprio papel, alguns pais preferem abrir mão da própria liberdade e cobrar do Estado, dos governos, de entidades públicas e de terceiros censura, limites e responsabilidades que eles mesmos não foram capazes de dar aos próprios filhos.
Se o seu filho acessa aplicativos que não deveria acessar, conversa com pessoas com quem não deveria conversar ou é exposto a situações ruins, inadequadas ou depreciativas, dentro ou fora da internet, a responsabilidade é sua, como pai e como mãe. Não é do Estado, não é do governo, não é da rede social, não é da big tech. É sua.
A principal responsabilidade de um pai e de uma mãe é cuidar. E cuidar também significa dar limites ao que os filhos podem acessar, ao que podem consumir e, principalmente, a quem pode ter acesso a eles. Isso significa acompanhar, restringir e, quando necessário, simplesmente proibir. Ser pai e mãe também é ser forte o suficiente para suportar um filho chorando, fazendo birra ou dizendo coisas horríveis quando determinadas decisões precisam ser tomadas. Muitas vezes, essas decisões são necessárias justamente para dar valores, direção e educação.
Pedir ao governo, ao Estado ou a entidades públicas censura, limites e posicionamentos não transfere essa responsabilidade e não exime pai e mãe do dever de cuidar. Nenhuma regra externa substitui a responsabilidade dentro de casa. Nenhum governo pode exercer por você o papel que é seu. E, quando os pais se omitem dessa função, não podem simplesmente terceirizar a culpa pelas consequências.
Nenhum político, professor, rede social, instituição ou terceiro será capaz de suprir o valor real de uma criança ter pai e mãe presentes, equilibrados e dispostos a ser aquilo que precisam ser: pai e mãe. Nem amigos, nem colegas, nem companheiros. Pai e mãe. Fortes o suficiente para ouvir choro, para ouvir um “eu te odeio” e ainda saber que aquele é o seu papel, porque as consequências de não exercê-lo podem ser muito piores do que escutar isso dos próprios filhos.
Tudo o que um filho precisa é de pais interessados em saber o que ele faz na internet, com quem conversa e pelo que se interessa. Pais interessados em compartilhar mais tempo com os próprios filhos, em transmitir valores, direcionamentos e referências. Se existisse uma geração de pais mais equilibrados, conscientes e capazes de exercer plenamente esse papel, talvez fosse muito menos necessário depender de censura, de cerceamento de liberdades ou de governos dizendo o que cada família deve fazer ou como deve educar seus próprios filhos.
Até porque essas soluções, muitas vezes, não resolvem a origem do problema. São paliativos. A pergunta real é: será que eu não posso ganhar um pouco menos e ficar mais tempo com a minha família? Será que eu posso adiar uma viagem? Posso adiar uma compra desnecessária? Posso viver uma vida mais simples, mas com mais capacidade de ser pai, de ser mãe, de estar em casa, de ser presente e de dar ao meu filho aquilo que talvez seja o maior presente que ele possa receber: educação, amor, carinho, limites, frustração, o sim e o não bem dados?
Ao não educar o próprio filho, você prejudica sua própria vida, prejudica a vida dele e também contribui para problemas maiores na sociedade. Você se diminui como indivíduo, como cidadão, abre mão de parte da sua liberdade, do seu futuro e da sua responsabilidade. Você está sendo qualquer coisa, menos aquilo que decidiu ser ao colocar uma criança no mundo.
Talvez, então, seja necessário voltar à pergunta do início: por que as pessoas têm filhos? E talvez algumas devessem ter a sobriedade de reconhecer que são incapazes ou não estão preparadas para tê-los e simplesmente dizer não. Isso pode ser muito mais honesto do que trazer crianças ao mundo sem ter a mínima capacidade de educá-las, criá-las e sustentá-las, contribuindo depois para o desequilíbrio social, para a transferência de responsabilidades, para o controle e para a perda de liberdade.
Não são necessariamente os filhos que se tornaram diferentes. Em muitos casos, foram os pais que se tornaram incapazes de exercer plenamente o próprio papel. Em algum momento, muitos também acreditaram que teriam a ajuda de uma estrutura social, de um status quo ou de instituições que, na prática, jamais substituiriam aquilo que só a família pode oferecer. E assim abriram mão justamente daquilo que ninguém poderia fazer por eles: educar os próprios filhos. Porque colocar uma criança no mundo pode acontecer em um instante. Tornar-se pai ou mãe de verdade exige uma vida inteira.





















