O padrão de sucesso mudou ao longo do tempo, mas quase sempre preservou a mesma lógica: pessoas bem-sucedidas são aquelas que conseguem se destacar do meio comum. Algumas realmente constroem algo relevante, alcançam prestígio, riqueza ou influência. Outras apenas ocupam esse lugar dentro de uma fantasia coletiva. Ainda assim, os demais observam, copiam seus comportamentos e reproduzem os arquétipos associados àquilo que a sociedade decidiu chamar de sucesso.

O curioso é que, na era moderna, não basta ter sucesso. Também é necessário parecer humilde, sensível, consciente e próximo das dificuldades humanas. Os conceitos são progressivamente esgarçados até poderem assumir qualquer significado conveniente. Humildade pode ser exibida diante de uma câmera, sofrimento pode ser transformado em conteúdo e virtude pode ser fabricada por meio de uma boa estratégia de imagem. Entre todas essas transformações, talvez nenhuma seja tão significativa quanto o livre uso da palavra “vítima”.

No passado, uma vítima era alguém que claramente havia sofrido uma injustiça, uma agressão física, um roubo, uma violência grave ou a perda de alguém em circunstâncias brutais. Mesmo as pessoas que realmente passavam por experiências desse tipo, muitas vezes, não gostavam de ser reduzidas à condição de vítima. A palavra carregava uma ideia de incapacidade, fragilidade e dependência. Ser reconhecido apenas pelo que fizeram contra você significava permitir que sua identidade fosse definida pela violência sofrida. Ninguém queria viver permanentemente associado a isso.

Mas o mundo moderno traria uma surpresa: a revolução do vitimismo. A vítima deixou de representar apenas alguém que sofreu um dano e passou a ocupar um elevado padrão moral. Ganhou status de soberana na sociedade, conquistou lugar de fala, tornou-se referência pública e passou a ser tratada como alguém cuja experiência não poderia ser questionada. Como tudo aquilo que recebe prestígio tende a ser imitado, nasceu o vitimista: aquele que não apenas foi vítima de alguma coisa, mas que passa a viver de ser vítima.

Dentro dos novos padrões impostos pela sociedade brasileira e mundial, qualquer pessoa que queira se destacar não pode ser apenas rica, bonita, talentosa ou admirada. Ela também precisa demonstrar que foi vítima de alguma coisa. E, se conseguir ser vítima de várias coisas ao mesmo tempo, melhor ainda. A condição de vítima tornou-se uma espécie de certificado moral, uma garantia de legitimidade diante do público.

Se alguém se envolve em uma briga, já não basta explicar o que aconteceu. É mais eficiente afirmar que apanhou por algum tipo de discriminação. Se alguém grita com você, surge uma maravilhosa oportunidade de gravar um vídeo, chorar diante da câmera e mostrar às redes sociais o peso da sua existência. O importante não é compreender os fatos, mas engajar a falsa compaixão que movimenta tantos feeds. Quanto mais indignação, sofrimento e revolta forem produzidos, maior será a atenção recebida.

Não importa que seja falso. Não importa que seja fantasia. Você pode estar, literalmente, muito bem de vida, mas, nas redes sociais, precisa chorar. Ninguém quer acompanhar apenas mais um rico exibindo luxo, viagens e um rosto transformado por cirurgias. As pessoas também querem se alimentar da miséria, do medo e da sensação de pertencimento a grupos identitários e ideológicos. O sofrimento se tornou uma forma de entretenimento, desde que seja apresentado com a estética correta e com uma narrativa capaz de despertar indignação.

Você pode ter enriquecido com dinheiro sujo, e pouca gente se importará. Seu rosto pode estar desfigurado por procedimentos estéticos, mas todos dirão que está lindo. Você pode nunca ter passado por qualquer necessidade real relacionada à cor, ao sexo ou à violência. Ainda assim, poderá aparecer nas redes sociais para explicar o peso insuportável de viver em uma sociedade opressora e preconceituosa. A experiência concreta se tornou menos importante do que a capacidade de representar corretamente o papel esperado.

Quando a fantasia tomou o lugar da realidade? Em que momento tantas pessoas decidiram abrir mão da própria capacidade de pensar para simplesmente reproduzir o comportamento do grupo? A sociedade passou a agir como um cardume ou uma manada: todos correm, param e mudam de direção porque viram outro igual fazendo o mesmo. Poucos sabem para onde estão indo. Menos ainda sabem por que começaram a correr. A única certeza é que ninguém quer permanecer sozinho quando todos os outros parecem caminhar na mesma direção.

O maior problema, porém, não está apenas naqueles que trocaram a realidade por uma fantasia deturpada. O problema maior é que essas pessoas se multiplicaram, conquistaram lugares de poder e passaram a impor sua percepção aos demais. Já não se limitam a viver dentro de uma narrativa particular. Querem que todos participem dela, aceitem suas regras e reconheçam como verdade aquilo que, muitas vezes, nasceu apenas de uma sensação.

Sentimentos se tornaram mais importantes do que fatos e lógica. Sentir-se ofendido passou a funcionar como argumento suficiente para estar certo. A ofensa deixou de ser uma reação subjetiva e tornou-se base para movimentações estatais, criação de leis, censura e perseguição. Basta alguém alegar que se sentiu atingido para que surja imediatamente a exigência de punição contra quem falou, escreveu ou simplesmente se recusou a repetir o discurso esperado.

Os vitimistas passaram a construir direitos civis em cima de suas próprias ideias sobre quem deve ou não ser considerado vítima. Usam suas mentes vazias e constantemente ofendidas como fundamento para movimentos que, em nome da proteção, defendem a perda das liberdades individuais. A lógica é sempre a mesma: como alguém se sentiu ferido, outra pessoa precisa ser calada.

Ora, por que eu devo ser responsabilizado simplesmente porque você se ofende? Eu posso lhe desejar um bom dia, e você pode interpretar isso de maneira negativa. Essa interpretação lhe dá o direito de me calar? Uma parcela cada vez mais significativa da sociedade acredita que sim. Trata-se de uma parcela que jogou fora qualquer reação autêntica de si mesma para fazer parte de uma massa incapaz de lidar com a realidade, com opiniões diferentes e, principalmente, consigo própria.

Ninguém merece alguma coisa apenas porque nasceu preto ou branco. O que uma pessoa merece deve estar relacionado ao seu comportamento, às suas atitudes e àquilo que construiu. Da mesma forma, ninguém deveria ser tratado de maneira diferente simplesmente porque nasceu homem ou mulher. As pessoas devem ser avaliadas por suas escolhas, e não por características que nunca escolheram possuir.

Também não há mérito automático em se orgulhar de ter nascido preto, branco, homem ou mulher. Ninguém realizou qualquer esforço para nascer com determinada cor ou determinado sexo. O orgulho deveria surgir das coisas que alguém fez, dos obstáculos que enfrentou, da maneira como tratou os outros e daquilo que foi capaz de construir durante a vida.

Há quem nasça pobre, em um lugar ruim, cercado por limitações, e ainda assim transforme a própria vida de maneira digna, mesmo que continue vivendo de forma simples. E há quem utilize cada dificuldade como desculpa para se tornar irresponsável, cruel ou desonesto. As condições iniciais são diferentes, as oportunidades não são distribuídas igualmente e a vida pode ser profundamente injusta. Reconhecer isso, porém, não significa retirar completamente das pessoas a responsabilidade pelas próprias escolhas.

É justamente nesse ponto que o vitimismo se torna tão perigoso. Ele não se limita a reconhecer que alguém sofreu uma injustiça. Ele transforma essa injustiça em identidade, autoridade moral e justificativa permanente. A pessoa deixa de dizer “isso aconteceu comigo” e passa a dizer “isso define quem eu sou e explica tudo o que faço”. A dor deixa de ser uma experiência que precisa ser superada e se torna um patrimônio que não pode ser abandonado, porque é dela que vêm a atenção, o pertencimento e o poder.

O vitimista não deseja necessariamente que o sofrimento termine. Muitas vezes, precisa que ele continue existindo, ao menos como narrativa. Sem a condição de vítima, perde o argumento, o reconhecimento e a posição moral que conquistou. Por isso, qualquer questionamento é interpretado como violência, qualquer discordância como opressão e qualquer exigência de responsabilidade como falta de empatia.

A revolução do vitimismo não ensinou apenas as pessoas a denunciarem injustiças reais. Ela também ensinou que parecer ferido pode ser mais vantajoso do que demonstrar força, que sentir-se ofendido pode ser mais eficiente do que apresentar argumentos e que pertencer a uma categoria de vítima pode conceder mais prestígio do que aquilo que alguém realizou durante a vida.

Assim, a vítima deixou de ser apenas alguém que sofreu alguma coisa. Tornou-se um modelo social a ser imitado, uma posição desejada e, em alguns casos, uma profissão moral. Quanto maior a dor exibida, maior a autoridade reivindicada. Quanto maior a ofensa alegada, menor a necessidade de provar qualquer coisa.

No fim, o vitimismo oferece uma saída confortável: se tudo o que sou é consequência do que fizeram comigo, então nada do que faço é verdadeiramente minha responsabilidade. Meus fracassos pertencem à sociedade, meus erros pertencem ao preconceito e minhas escolhas pertencem às circunstâncias.

Mas uma sociedade que transforma todos em vítimas acaba formando indivíduos incapazes de assumir a própria vida. E talvez essa seja a maior vitória da revolução do vitimismo: convencer as pessoas de que abrir mão da responsabilidade é uma forma de libertação, quando, na verdade, é apenas outra forma de dependência.