Caminhamos para um mundo de maior e mais pura provação emocional e de maturidade humana. Todos os dias somos testados na nossa capacidade mental, emocional e no controle das nossas próprias pulsões, emoções, desejos e vontades.

A comparação constante com a vida alheia, seja consciente e direta, seja subconsciente e indireta, faz com que muitas pessoas passem a pautar a própria existência pelo que veem nos outros. Elas buscam sentido, norteiam vontades e desejos, medem a própria vida a partir do que o outro tem, faz, mostra e conquista.

Mas existe uma outra parcela, talvez menor, que diretamente não liga para a vida alheia. Ainda assim, é bombardeada o tempo todo por redes sociais, televisão, publicidade e informação, sempre com a mesma mensagem escondida: a vida boa ainda está para ser alcançada. Ainda falta algo. Ainda existe um além.

Há uma tentativa constante de produzir uma insatisfação congênita na sociedade. Uma tentativa de tornar qualquer espaço físico ou psicológico desconfortável, como se nunca pudéssemos estar satisfeitos com o agora, com os bens que temos, com as conquistas que tivemos, com a vida que já existe diante de nós.

A consequência disso é uma insatisfação clara, extensa e latente com a própria vida, com o próprio eu, com as próprias conquistas, com a própria família. Não há marido perfeito. Não há mulher perfeita. Não há carro bom. Não há casa boa. Há sempre a obrigação de buscar o além. O outro sempre parece ter algo diferente e desejável que eu também quero.

Logo, essa insatisfação vira uma casca na pele das pessoas. Algo inerente à própria existência moderna e desejante. Um desejo sem cabeça, um desejo sem norte, como a emoção de um bebê que chora mesmo sem fome, mesmo sem dor. Ele chora porque quer chorar. Sem objetivo. Sem razão. Puro egoísmo, pura necessidade carnal, sem raciocínio.

Ora, quando a insatisfação chega a esse nível em seres humanos adultos, teoricamente conscientes, ela deixa de ser apenas uma sensação e passa a ser projetada no mundo, nos outros e nas coisas. Mas, no fundo, é uma insatisfação consigo mesmo. E quem está insatisfeito consigo mesmo, não importa onde esteja, o que tenha ou conquiste, continuará insatisfeito.

Não importa se o homem é bonito, paciente, delicado, se cozinha bem, se ouve, se cuida. Ele não presta. Haverá um defeito. Não importa se a mulher é calma, companheira, presente, se gosta de cuidar da casa e não reclama. Também haverá algo errado. O carro pode valer milhões, mas terá um barulho que incomoda. A casa pode ser enorme, mas faltará alguma coisa.

Não importa a mansão que você compre. Não importa o círculo social que você frequente. Nenhum lugar do mundo estará verdadeiramente bom e confortável se você próprio não está confortável dentro da sua cabeça. A sua consciência, o seu eu, não se sente confortável no corpo que habita, nas decisões que toma, no ser humano que se tornou.

A insatisfação não é exatamente com o mundo, embora o mundo seja a desculpa perfeita. Porque o mundo não presta. Porque as pessoas não prestam. Porque nada é suficiente. Mas essa é a maquiagem mais eficiente para virar os olhos para fora, em vez de olhar para dentro. Em vez de encarar o espelho dos olhos, do cérebro, da mente, e perguntar a si mesmo o que foi que você fez da sua própria vida.

E entender isso pode ser pesado. Pode tirar o sono, causar tristeza, abatimento e um desespero silencioso em muita gente. Perceber que você talvez seja a própria fonte da sua insatisfação pode ser um golpe profundo na estrutura da própria existência. Mas também pode ser a porta da liberdade.

Porque, a partir disso, talvez você entenda que nada é exatamente do jeito que queremos. Que o desejo é constante. Que as emoções existem além da nossa compreensão imediata. Mas também que devemos controlá-las. Devemos pensar, raciocinar, ter senso crítico, principalmente conosco, com as nossas ações, com as nossas vontades e com aquilo que permitimos crescer dentro de nós.

Talvez o passo além seja apenas um passo no vazio. Talvez aqui, agora, onde você está, seja o melhor lugar possível para estar.

O insatisfeito consigo mesmo nunca vai se sentir bem em lugar nenhum, em companhia nenhuma, fazendo coisa alguma. Sempre colocará defeitos nas coisas, nos outros, nos lugares, nas circunstâncias. Mas dificilmente terá coragem de olhar para si mesmo e entender que a casca que habita é o lugar mais desconfortável e que mais o incomoda.

Muito menos terá coragem de se desfazer do concreto armado que criou em volta da própria mente. Das grades que foram soldadas, uma a uma, no pensamento, prendendo qualquer possibilidade real de senso crítico.

A maturidade talvez esteja em perceber que vivemos olhando através de uma janela colocada na própria mente, uma janela que só permite enxergar aquilo que nos é confortável e não nos machuca.

Covardes de nós mesmos nós somos.

O maior inimigo do homem é o próprio homem. O maior inimigo do ser é o próprio ser.

O eu que bate dentro da sua cabeça, de dentro para fora, é aquele que mais te incomoda, que mais te atrapalha, que mais te limita. É também aquele que mais merece atenção e controle.

Na próxima vez que você estiver em um lugar que te incomode, em um lugar que você acredite ser ruim, talvez o lugar não seja ruim. Talvez você seja. Ou talvez você apenas não caiba ali.

O mundo não vai se curvar ao tamanho das nossas vontades. As coisas são como são, e talvez a verdadeira ruptura comece quando aceitamos isso sem transformar cada frustração em revolta, cada limite em tragédia, cada desejo não atendido em prova de que a vida nos deve alguma coisa. A maior fera que precisamos dominar não está fora. Está dentro. É o desejo sem freio, a insatisfação sem rosto, a vaidade que chama de injustiça tudo aquilo que apenas contraria a própria vontade.