O ser humano tem perdido a capacidade de confiar. Isso acontece porque, nas relações modernas, a confiança se tornou desnecessária. Boa parte do que se vive hoje em uma relação é a troca de informações, compra e venda, troca de dinheiro. E isso não precisa mais ser baseado em confiança, pois tudo foi substituído por sistemas. Ou é ou não é, sim ou não, um ou zero. A capacidade de identificar nas pessoas o que elas realmente são, se dizem a verdade, se farão o que disseram que fariam, está se perdendo. O valor da palavra, da honra, de dizer a verdade, ao invés de se tornar algo mais precioso, sofreu uma inversão de valores.

As pessoas raramente dizem o que realmente pensam ou fazem o que disseram que iam fazer. Tudo se tornou abstrato, condicionado ao benefício imediato. A confiança, no entanto, leva tempo para ser construída. Qualquer relação – entre marido e mulher, pais e filhos, amigos – exige tempo para criar algo real. Mas essa confiança se perde com uma rapidez impressionante, e o ser humano paga um alto preço por isso.

Esse preço não é apenas perder a confiança em uma pessoa, mas perder a capacidade de confiar, de exercitar essa confiança de maneira plena. Quando uma pessoa mente, engana ou toma atitudes que mostram que não é confiável, você precisa colocar limites nessa relação. E isso se aplica não apenas ao cônjuge, mas também aos amigos, familiares, e até aos próprios filhos. Se a sua mãe mente para você, se ela te engana, se ela toma atitudes que mostram que não é uma boa pessoa, você deve entender que precisa colocar limites também nessa relação. Isso não significa que você deve deixá-la de lado ou parar de amá-la, mas sim que, como em qualquer outro relacionamento, é necessário estabelecer o limite para que você não seja prejudicado. A confiança deve ser moldada conforme o comportamento de cada um.

Se um amigo te rouba, você não deve mais deixá-lo em sua casa. Se o seu marido te trai, você precisa reavaliar a confiança que deposita nele. Se seus filhos fazem compras no seu cartão de crédito sem permissão, você deve esconder o cartão e proteger o que é seu. Isso é sobre entender as capacidades do outro, saber o que ele é capaz de fazer, e agir conforme suas atitudes. Não se trata de desamor, mas de autossustentação e preservação. Cada relação exige limites, e esses limites devem ser ajustados de acordo com o comportamento de quem está ao seu redor.

Não se deve confiar cegamente em ninguém, nem mesmo em si mesmo. Todos nós precisamos de vigilância sobre nossos próprios impulsos, porque, se não tivermos controle, podemos nos trair. A confiança precisa ser moldada com o tempo, e, se você perceber que as pessoas ou os sistemas não entregam o que prometem, é preciso colocar limites. A confiança deve ser reavaliada sempre que houver sinais de desonestidade ou manipulação. Não devemos abrir mão dos cuidados com nossa vida, nossa mente, nossa casa, para sistemas ou para outras pessoas. Isso pode nos destruir.

As pessoas têm se tornado mais incapazes de lidar com o real. Elas veem o mundo apenas através das lentes do abstrato, como uma cena vendida a elas como propaganda. Elas não questionam, são mais reativas e guiadas por seus próprios instintos. Isso não traz transformação, mas as afunda cada vez mais na falta de discernimento. Elas trocam de relações como trocam de roupas, sem responsabilidade com suas palavras ou compromissos. E a sociedade paga o preço por essa falta de compromisso.

No final, o custo disso é alto. Não confiamos mais que alguém fará um bom serviço, não confiamos que o preço está correto, não confiamos que o outro dirá a verdade ou cumprirá o que prometeu. Isso cria uma sociedade de desconfiança, onde as pessoas tentam tirar vantagem umas das outras. A confiança, quando se perde, é difícil de ser reconquistada, e o preço é o enfraquecimento das relações e uma crescente paranoia social.