A amizade entre homens e mulheres é um tema cercado de complexidade, especialmente quando analisamos as expectativas e posturas diferentes que cada sexo tem em relação a esses vínculos. Diversos estudos e pesquisas demonstram que as amizades entre sexos opostos possuem uma dinâmica distinta das amizades entre pessoas do mesmo sexo, com divergências nas motivações, na percepção de atração e na postura emocional. Em grande parte, essas diferenças se devem a fatores biológicos e culturais que influenciam como homens e mulheres percebem suas interações sociais. A partir de dados concretos e de estudos, é possível perceber que as amizades entre homens e mulheres frequentemente não são tão platônicas como se pensa e, muitas vezes, uma das partes – geralmente o homem – mantém a amizade com a expectativa de que ela evolua para algo mais, seja romântico ou sexual.

Um dos estudos mais relevantes sobre esse tema é o realizado por Bleske-Rechek et al. (2012), que investigou amizades mistas entre homens e mulheres. Os dados desse estudo revelaram que 50% dos homens afirmaram sentir atração por suas amigas, enquanto apenas 20% das mulheres disseram o mesmo sobre seus amigos. Esse contraste é significativo e aponta para uma realidade que muitas vezes não é discutida abertamente: os homens tendem a ver a amizade com uma mulher como uma oportunidade de romance ou sexo, enquanto as mulheres, na maioria das vezes, a percebem como uma amizade platônica. Esse tipo de disparidade nas expectativas é uma das razões pelas quais as amizades entre homens e mulheres são, muitas vezes, mais complicadas do que as amizades entre pessoas do mesmo sexo.

Além disso, Huston et al. (2000) reforçam essa perspectiva ao afirmar que os homens, em média, superestimam a possibilidade de atração e de desenvolvimento de um relacionamento romântico ou sexual em suas amizades com mulheres. Eles geralmente entram em uma amizade com a esperança de que ela possa evoluir para algo mais íntimo, o que muitas vezes não é o caso para as mulheres, que preferem uma amizade baseada no apoio emocional e na conexão não sexual. O estudo indica que os homens têm a tendência de interpretar sinais de proximidade ou amizade como oportunidades de envolvimento romântico, um fenômeno que está amplamente ligado à biologia e às normas culturais sobre sexualidade e relacionamento entre os sexos.

O estudo de Dewitte e De Dreu (2018) também é relevante, pois analisa a dinâmica de atração em amizades mistas. A pesquisa mostrou que a atração física é um fator significativo na amizade entre homens e mulheres, especialmente para os homens, que, ao manterem uma amizade com uma mulher, podem nutrir uma expectativa implícita de que ela leve a um envolvimento mais íntimo. A atração física, mesmo que não verbalizada, é um elemento presente na maioria das amizades mistas, e isso cria uma dinâmica diferente da que ocorre entre amigos do mesmo sexo. Em outras palavras, mesmo que a amizade comece com intenções platônicas, a possibilidade de atração frequentemente paira sobre a relação, o que torna a amizade mais complexa e sujeita a mal-entendidos.

As amizades entre pessoas do mesmo sexo, por sua vez, não enfrentam esse tipo de complexidade. Nas amizades entre mulheres, por exemplo, o compartilhamento emocional e a intimidade são mais comuns e as expectativas em relação à amizade são, em grande parte, mais alinhadas. Mulheres, em geral, tendem a investir mais na construção de um vínculo emocional profundo, sem o risco da atração sexual ou romântica interferir. Nas amizades entre homens, o comportamento é igualmente mais voltado para atividades práticas e interações em grupo, o que também elimina as ambiguidades sobre atração. O fato de não haver atração romântica ou sexual entre amigos do mesmo sexo facilita a construção de amizades mais claras, onde as expectativas são compartilhadas de forma mais explícita e as interações são mais simples.

Porém, a realidade das amizades entre homens e mulheres é outra. A atração física e romântica frequentemente está presente, e isso gera uma série de questionamentos: até que ponto uma amizade mista pode ser verdadeiramente platônica? Será que as expectativas românticas de um dos lados podem ser ignoradas sem afetar a dinâmica da amizade? E mais importante, é possível que as amizades entre homens e mulheres sejam, de fato, isentas de qualquer desejo oculto? A pesquisa sugere que não. Quando os homens mantêm uma amizade com uma mulher, há uma grande chance de que eles a vejam, inconscientemente, como uma possibilidade de algo mais — algo que as mulheres, muitas vezes, não percebem ou não compartilham. Esse fenômeno é, em grande parte, biológico e cultural, refletindo normas que associam o contato entre os sexos à possibilidade de romance e sexo.

Portanto, a amizade entre homens e mulheres é permeada por dinâmicas que tornam essa relação diferente das amizades entre pessoas do mesmo sexo. Os homens, em geral, mantêm suas amizades com mulheres com a expectativa de que elas possam evoluir para algo mais, seja romântico ou sexual. Estudos corroboram com essa visão, mostrando que, mesmo quando as amizades começam de maneira platônica, a atração física e as expectativas românticas tendem a surgir, especialmente para os homens. Isso cria um cenário em que as amizades entre homens e mulheres são mais complexas e sujeitas a mal-entendidos, muitas vezes devido à diferença nas expectativas de ambos os lados. A amizade entre homens e mulheres frequentemente não são tão simples quanto parecem e, em muitos casos, são permeadas por uma disparidade nas intenções, o que levanta uma questão crucial: será que uma amizade entre homens e mulheres pode ser realmente desprovida de qualquer desejo romântico ou sexual, ou estamos apenas ignorando uma realidade subjacente?

Fontes:
Bleske-Rechek, A., Somers, E., Micke, C., Erickson, L., & Matteson, L. (2012). “Benefit or burden? Attraction in cross-sex friendship.” Journal of Social and Personal Relationships, 29(8), 1056–1075. Wikipedia+4SAGE Journals+4SAGE Journals+4

Huston, T. L., & Sprecher, S. (2000). “Sex differences in the initiation of heterosexual relationships.” Personality and Social Psychology Bulletin, 26(3), 291–309.

Dewitte, M., & De Dreu, C. K. W. (2018). “Sexual attraction in cross-sex friendships: The role of gender and relationship status.” Personality and Social Psychology Bulletin, 44(1), 3–14. Wikipedia