A vida universitária nas Ciências Humanas e Sociais é um período onde adolescentes e jovens, como eu, se deparam constantemente com a seguinte situação: vez ou outra na sala de aula ou em uma mesa de bar, nas rodas de conversa informais ou nas reuniões previamente agendadas, vem a tona algum elemento embaraçoso. Qual seja, aquele livro clássico que todo mundo já leu, aquele filme o qual parece ser necessário que você tenha assistido (de preferência de algum diretor polonês cujo nome é impronunciável), aquele documentário descolado sobre a questão da Chechênia ou da Palestina, aquele disco de música experimental lançado recentemente ou mesmo aquele cantor alternativo que os seus “pares” ouvem enquanto estão escrevendo ou apreciando as imagens do cotidiano; e o pior, aquela viagem obrigatória para os EUA ou para a Europa. Aparentemente todos já leram de tudo. Já viram de tudo. Já ouviram de tudo. E mais, falam dois ou três idiomas, fizeram intercâmbio no exterior (com bolsa em alguns casos) e já conhecem cidades e países os quais você acha muito distantes do seu bolso.

Nesse mundo onde quem dita as regras é a classe média, de imediato a impressão que se tem é a de que você é um zero à esquerda que não tem currículo e nem capital cultural a altura dos colegas. Afinal, quem sou eu existencialmente na frente de quem já leu a obra de Bourdieu em francês e passou as últimas férias na Grécia? Ou de quem já publicou um punhado de livros antes dos 30 anos de idade e tem um currículo Lattes de 30 páginas? Sim, pois é pelas linhas cadastradas na plataforma do CNPq que temos uma métrica da “sabedoria” de um acadêmico. Segundo a visão de mundo produtivista imperante, preencher as seções ali dispostas nada tem a ver com os recursos financeiros a disposição de um estudante ou de um pesquisador, com a distribuição irregular de recursos a depender do programa ou do campus, com a capacidade de ir a congressos, palestras ou simpósios. Enfim, com questões de classe, de raça ou de gênero. Todo mundo está impelido a ser tratado da mesma forma, debaixo do mesmo condão.

Erudição pra cá, erudição pra lá. Sabedoria irrestrita. No mundo acadêmico, a pseudo perfeição vem a cena. Para pessoas eminentemente imperfeitas (como é o caso deste que vos fala) a sensação é muitas vezes de não pertencimento, de preguiça para os salamaleques habituais e de profundo desconhecimento. É de acordar apavorado com a sensação de que é preciso ainda fichar estantes inteiras para pelo menos afirmar que “Só sei que nada sei”. De traçar metas constantes para aplicar o conhecimento obtido em alguma coisa útil enquanto eu não tenho o título de doutor e portanto a legitimidade de fazer pesquisas e lecionar em alguma faculdade qualquer. Mas também é de ficar empalidecido com a inutilidade flagrante de armazenar teses, dissertações e monografias em repertórios de sites universitários a fim de que todas elas se percam depois do muito trabalho que as originou. Justamente nesse espaço onde cada um parece mais culto do que o outro, mais generoso que a média ou mais cosmopolita do que o resto dos mortais que curtem os feriados comendo farofa no litoral do estado, reinam a baixa praticidade, o burocratismo e as mesquinharias. A sociedade e o povo tão falados nos estudos na verdade estão bem longe das carteiras acolchoadas das salas de aula, e mais ainda da lógica que exclui tudo e todos que não sabem referenciar corretamente as citações de algum Sir ou Lorde europeu utilizado para explicar a realidade das nossas comunidades.

Todo esse cenário de mistificação não é nada estranho para elementos elitizados que adentram os corredores e gritam aos quatro cantos do mundo que certa revista A1 acatou suas relevantes contribuições para a humanidade enquanto o imperioso cumprimento de um simples plano de curso é tarefa hercúlea e indigna. Na universidade eu descobri estilos de vida e critérios de julgamento muito distantes da realidade de onde eu vinha. Mesmo morando em diferentes cidades do Brasil – no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste – sempre passei a maior parte do meu tempo na periferia das cidades. Na minha família e no meu convívio sempre houveram homens e mulheres comuns, as vezes sem instrução formal. A universidade e a academia nada tem a ver com essas pessoas. Deve ser por isso que elas nem deem crédito para o que os cientistas sociais falam: isso quando falam, quando vão a imprensa participar do debate público. Por um lado, há até quem defenda o total insulamento dos sábios na torre de marfim. Falando exclusivamente entre os seus e recebendo dinheiro público (já escasso nos dias de hoje) para se regozijar em meio a elogios. Sim, porque dificilmente alguém discorda de alguém explicitamente nesses ambientes. Impera a política da boa vizinhança ou pelo menos a Guerra Fria. Pois no fim das contas, a distribuição das bolsas e dos cargos depende de uma conduta polida. Realpolitik, meus caros.

Se a academia não é popular, se os encontros acadêmicos são monopolizados pela homogeneidade racial mesmo em uma área como a minha onde predominam pesquisadores de “esquerda”, então a conclusão óbvia é de que prática e discurso são totalmente dissonantes e de que resta pouca saída para esse país além de se trancar em casa, apagar as luzes e ver um bom filme baixado em ZIP. A classe supostamente iluminada: os guardiões do humanismo em nossa nação! Se eles, os cultores das Ciências Sociais nada tem a dizer de verdadeiro, o que eu teria? E ai do professor que for vender livro com títulos sugestivos ou que resolver participar de um reality show. Aluno? Esse não é sujeito de direito. Está em processo de formação e não tem o direito de opinar. Sou estudante e tenho que escalar e escalar e escalar essa hierarquia, pra quem sabe algum dia, uns seis ou sete olhem para a minha produção e digam: Bom! Isso daqui a vinte anos, se ainda existir pesquisa científica na República Brasileira de Gilead. Sou a inadequação viva pra esse tipo de coisa, talvez por conta de uma leve misantropia (faltou um termo melhor, mais original), de um leve estranhamento com o ser humano. Mas só leve mesmo. Sem asperezas. Sem ressentimentos. Nos coquetéis com docentes e discentes, nas 1001 citações embananadas em uma aula que devia ser de um tema específico, na espera interminável para ter resposta de uma revista científica, nos preços abusivos de inscrições de eventos, no trabalho sem expectativa de retorno e na sacralização do doutor (e do pós-doutor), não dá pra ser misantropo ou antissocial. Tem que ter muito amor ao homem, à mulher e às convenções, e também paciência. Quem sabe não seja a bendita paciência com esses simulacros de finesse que esteja me faltando…

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Recomendações Cinematográficas

Título: Longe do Paraíso
Direção: Todd Haynes
Gênero: Drama
Duração: 95 minutos
Ano: 2002

Hartford, Connecticut, 1957. Cathy Whitaker (Julianne Moore) é uma dona de casa que leva uma vida aparentemente perfeita, pois tem filhos, um dedicado marido, Frank (Dennis Quaid), e a possibilidade de ascensão social. Mas um dia tudo cai por terra quando Cathy, ao ir ao escritório de Frank, vê chocada ele beijando outro homem. Abalada com o acontecimento, Cathy busca conforto junto a Raymond Deagan (Dennis Haysbert), um jardineiro negro. A aproximação dos dois causa desconfiança junto a vizinhança, que não vê com bons olhos o relacionamento entre uma mulher branca e um homem negro.

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Título: Borderline Além dos Limites
Direção: Lyne Charlebois
Gênero: Drama
Duração: 110 minutos
Ano: 2008

A história de Kiki é mostrada em diferentes fases de sua vida. Com a mãe internada, ela é criada pela avó, que não se preocupa com ela. Seu refúgio é a escola. Sua vida antes dos 30 está bem longe de ser um conto de fadas. Ela se envolve com diversos homens, um após o outro. Sexo e álcool são suas únicas saídas e sua rotina. Mas aos 30 anos, Kiki enfrenta o maior de todos os desafios: aprender a amar a si mesma. Adaptação dos romances Borderline e La Brèche, da canadense Marie-Sissi Labrèche

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Título: O Sétimo Continente
Direção: Michael Haneke
Gênero: Drama
Duração: 104 minutos
Ano: 1989

Georg e sua esposa Anna percebem o quanto suas vidas são isoladas e monótonas quando sua filha Eva, em uma tentativa desesperada para conseguir atenção, passa a fingir estar cega. A família decide então alterar sua realidade e mudar para a Austrália. Inspirado em uma história verídica de uma família austríaca de classe média que decidiu cometer suicídio.

Veja também os indicados ao Oscar 2019 para melhor filme: “A Favorita”, “Green Book – O Guia” e “Vice”, meus favoritos da lista que contém 8 longa metragens no total. 

Recomendação Bibliográfica

“O que é Lugar de Fala?” de Djamila Ribeiro (Coleção Feminismos Plurais)

Muito tem se falado ultimamente sobre o conceito de lugar de fala e muitas polêmicas acerca do tema têm surgido. Fazendo o questionamento de quem tem direito à voz numa sociedade que tem como norma a branquitude, masculinidade e heterossexualidade, o conceito se faz importante para desestabilizar as normas vigentes e trazer a importância de se pensar no rompimento de uma voz única com o objetivo de propiciar uma multiplicidade de vozes. Partindo de obras de feministas negras como Patricia Hill Collins, Grada Kilomba, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Sueli Carneiro, o livro aborda, pela perspectiva do feminismo negro, a urgência pela quebra dos silêncios instituídos explicando didaticamente o que é conceito ao mesmo tempo em que traz ao conhecimento do público produções intelectuais de mulheres negras ao longo da história.

 

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Alberto Silva
Cientista Político, que carrega além das inquietações com a nossa sociedade e as formas de poder geridas a partir dela, um gosto pela escrita, pelas imagens e pelas diversas maneiras de expressão da beleza que está por trás do nosso interior.