BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO?

Não é difícil encontrar no Brasil, sobretudo atualmente, quem defenda a célebre ideia de que “bandido bom é bandido morto”. Pelo menos para os bandidos oriundos das classes populares, que são em sua maioria negros. Para os bandidos de colarinho branco ou da classe média, a prisão está de bom tamanho. Apesar das diferenças de apreciação, que revelam os preconceitos enrustidos na sociedade brasileira, o punitivismo é uma característica que nos marca, afinal, “quem erra tem que pagar pelo seu erro”. Talvez esse caráter do povo brasileiro ajude a explicar o sucesso do filme “Tropa de Elite” e sua sequência, ambos dirigidos por José Padilha.

Antes de qualquer coisa, é preciso pontuar que os filmes são tecnicamente primorosos e, sem dúvida, estão entre os grandes filmes brasileiros deste século. No entanto, algumas questões precisam ser esclarecidas.

Os filmes possuem como protagonista, um dos mais emblemáticos do cinema nacional, o Capitão Nascimento, interpretado brilhantemente por Wagner Moura. Líder natural, incorruptível, centrado, dedicado, disciplinado… Nascimento é um dos símbolos de um grupo especial da Polícia Militar (BOPE), que aparece na película como a última (e única) fortaleza no combate à violência, ao crime organizado e à corrupção.

Como uma obra coesa, os dois filmes se completam. No primeiro, o foco está na violência e no crime organizado. Até por isso, o filme possui mais “ação”: treinamentos, ações nas favelas (sempre nelas), troca de tiros, etc. A corrupção aparece, mas como consequência do tráfico e do crime organizado. Essa teoria é repetida à exaustão pelo Capitão Nascimento e reforçada pela narrativa. Desse modo, “limpando” as favelas do tráfico, a violência e a corrupção desaparecem.

Seguindo essa lógica, as forças de segurança não devem se preocupar com os direitos humanos, “coisa de esquerdista que defende vagabundo”, ou ter pena de bandido. Na primeira oportunidade, o bom policial mete bala no marginal. Ou parafraseando Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro: “mira na cabecinha e pow!”. A cena do segundo filme em que Nascimento chega a um restaurante, após uma ação mal empreendida em uma revolta presidiária, exemplifica de forma bastante elucidativa a tese de que “bandido bom é bandido morto”.

Conforme a segunda película se desenvolve, entretanto, a ordem dos fatores vai se alterando e a corrupção de consequência do crime organizado passa a ser a mantenedora dele. Aliás, o próprio crime organizado é tomado pelos corruptos (policiais e políticos), formando as tão famosas milícias. O Capitão Nascimento, promovido à secretaria de segurança pública, descobre que a favela, os favelados e os traficantes são apenas a ponta do iceberg do “sistema”. A culpa disso: a corrupção. O final do “Tropa 2” evidencia a mudança no pensamento do Capitão Nascimento e amarra a teoria do filme: o grande e maior problema do Brasil é a corrupção.

Pelo exposto, baseado na leitura dos filmes, não é possível dizer que a tese final defendida por “Tropa de Elite (1 e 2)” seja completamente incorreta, ou não tenha um fundo de verdade. Porém, meias verdades podem ser mais perigosas que mentiras completas. E é nisso que reside o problema. Antes, todavia, de retornar ao filme, recuemos no tempo e tomemos o pensamento de Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, para ampliar a problemática.

RAÍZES DO BRASIL E A MALDITA HERANÇA COLONIAL

Pensador refinado e erudito, Sérgio Buarque é um dos grandes intelectuais brasileiros do século XX. O seu ensaio sobre o país, “Raízes do Brasil”, publicado em 1936, reflete as questões de momento que o circundava, em que era necessário pensar o que formava o Brasil. Na sua interpretação, em linhas gerais, a herança colonial representa um entrave ao desenvolvimento socioeconômico do Brasil, sobretudo por uma questão: a corrupção. Mas vamos destrinchar um pouco esse raciocínio, visto que o pensamento de Buarque é mais sofisticado do que se pode resumir em uma frase.

Para Sérgio Buarque, a herança colonial nos legou um pensamento arcaico, baseado no latifúndio agroexportador, no patrimonialismo e no personalismo. Ou seja, mesmo após a independência, o Brasil continuou a ser comandado por elites conservadoras, presas à terra e a um modo de organização social em que a prevalência das relações pessoais, impede o desenvolvimento de instituições impessoais e, por consequência, ocorre uma interferência do privado sobre o público.

Essa característica da sociedade brasileira faz do brasileiro um homem cordial, maleável nas relações sociais, apegado ao personalismo e às emoções, desenvolvedor de jeitinhos para reger não só o cotidiano, como também o próprio Estado. Nesse sentido, o desenvolvimento democrático, social e econômico, que passa, segundo Buarque, pela construção e manutenção de instituições fortes, orquestradas por relações impessoais e racionais, não encontra espaço para florescer no Brasil.

A análise proposta em “Raízes do Brasil”, ainda que seja uma tese acadêmica, difundiu-se pela sociedade, afinal, quem nunca ouviu falar do homem cordial, do patrimonialismo ou de que o grande problema do país é a corrupção, o jeitinho brasileiro? Inclusive, alinhada a essas questões, vem a ideia de que os países do Norte, como os Estados Unidos, são totalmente diferentes por não possuírem os males que o Brasil possui, como a tendência maldita, oriunda da colonização, da corrupção do Estado.

Contrapondo-se às ideias de Sérgio Buarque em “Raízes do Brasil”, o sociólogo Jessé Souza, entende que ao traçarmos como problema central do Brasil a corrupção, herança da colonização portuguesa, deixamos de lado uma série de questões problemáticas para a história do país, sobretudo a escravidão e o seu legado, como o racismo, os preconceitos de classe, a desigualdade social, a exploração dos trabalhadores, etc.

Não se trata, de acordo com Jessé Souza, de desconsiderar a existência da corrupção no Brasil, das esferas micro às macroespaciais. No entanto, isso não responde à totalidade da formação histórica do país, tampouco dos seus problemas. Não levar em consideração em primeiro plano a escravidão e suas consequências faz com que essa questão fique como secundária ante a problemática primordial, a corrupção decorrente do personalismo e do patrimonialismo.

Corroborando com o pensamento de Souza, entendo que a despeito dos entraves levantados por Sérgio Buarque ao desenvolvimento socioeconômico do Brasil, a corrupção não é a questão central da sociedade brasileira, nem é exclusiva dos países do Sul Global. Uma pesquisa rápida sobre a origem das empresas mais importantes dos Estados Unidos demonstra que a busca por levar vantagem nas situações (públicas ou privadas) não é exclusividade do Brasil. Ademais, colocar a corrupção no centro do debate é silenciar outras problemáticas e o que faz com que a corrupção aconteça, já que esta não é gerada naturalmente.

O SISTEMA É FODA!

Retornando aos filmes, após o passeio histórico-sociológico, é perceptível que a conclusão proposta por “Tropa de Elite” vai ao encontro do pensamento de Sérgio Buarque: “o problema do Brasil é a corrupção, porque o sistema é foda”. A grande questão, entretanto, é definir o que é o sistema e por que ele existe. E essa reflexão não aparece nem em “Raízes do Brasil” nem em “Tropa de Elite”, o que leva a reprodução na sociedade de um senso comum que não aprofunda criticamente a análise.

Dito de outro modo, o sistema colonial, que possuía como força motriz a instituição da escravidão, bem como os problemas que dela decorrem – como a desigualdade e a injustiça social, o racismo e os preconceitos de classe, as opressões e violências (em sentido amplo) aplicadas pelas elites às classes subalternizadas, entre outras coisas – não possuem nenhuma relação com a favela, os favelados, o tráfico, o crime organizado, o jeitinho brasileiro e a corrupção? Será que a nossa estrutura social, historicamente opressiva e desigual, não diz nada sobre o que é o Brasil?

Como dito, as conclusões de “Raízes do Brasil” e “Tropa de Elite” resultam em meias-verdades, que, ao serem reproduzidas na sociedade, criam cortinas de fumaça que impedem uma reflexão estrutural e crítica sobre as bases da nossa sociedade. Não adianta dizer que “O sistema é foda! Ainda vai morrer muito inocente”, se não houver uma reflexão crítica sobre o que é o sistema. E este não é a corrupção. A corrupção é um sintoma, não a doença.

Mais uma vez, para que fique claro, as leituras de “Raízes do Brasil” e “Tropa de Elite” nos oferecem elementos interessantes para pensar o Brasil. Entretanto, esses elementos são limitados e se reproduzem de forma grosseira pela sociedade. E não por culpa da sociedade em si, mas pela forma como as classes dominantes se apropriam dos discursos produzidos por tais obras e as apresentam à exaustão na vida social.

Enquanto não passarmos a operar em uma reflexão mais profunda sobre as questões que envolvem a formação histórica do Brasil e o que significa ser brasileiro, a despeito de se fazer o bem, cumprir com a lei e executar a justiça, as pessoas que são não só a ponta do iceberg, mas os frutos do próprio sistema, continuarão morrendo como se não fossem nada, inclusive inocentes, como o Evaldo Rosa. Paralelamente, o sistema que produz essa barbárie cotidiana se perpetuará através de seus elementos, como a corrupção. Mas não só ela, porque ela não é o sistema. Resta, então, saber o que é o sistema, porque foda, a gente (trabalhadores, negros, LGBT’S, mulheres, indígenas, quilombolas) já está cansado de saber que ele é.

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