Um jovem de 22 anos, negro, gay e evangélico foi internado em um estado grave de depressão pois sentia-se culpado por segundo ele, não conseguir “corrigir sua sexualidade”. Porém a médica Júlia Rocha fez uma prescrição muito diferente, ela recomendou que o paciente conhecesse o conteúdo produzido por personalidades negras que dominam temas como o combate ao racismo e à homofobia, e também feminismo.

A médica postou uma foto da receita em seu perfil do Facebook que repercutiu entre internautas. Ela contou que fez essa receita, “impregnada de um desejo imenso de vê-lo melhor”, cerca de duas semanas antes da publicação.

Segundo a médica, o jovem foi levado para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) após tentar suicídio, ele recebeu atendimento psicológico e psiquiátrico. Inicialmente, foi prescrito um antidepressivo e realizada uma abordagem psicoterápica. Em um encontro posterior, Júlia Rocha avaliou que podia acrescentar algo diferente ao tratamento.

“Ele já estava amparado por psiquiatra, psicólogo, em acompanhamento no Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e outras Drogas (Caps-AD) e tinha o apoio da família. Por isso coube essa ‘receita’, justamente por que ele já havia sido cuidadosamente medicado, o que é muito importante, pois o risco de vida é iminente numa situação de depressão. Mas, para mim, precisava se aprofundar no entendimento do seu lugar social como um homem gay, negro e periférico. Tem horas que só enxergando e conhecendo as estruturas que nos oprimem pra conseguir dar o próximo passo”, diz a médica, que também é negra. Especialista em Medicina da Família e Comunidade, ela afirmou ao Hoje em Dia sempre buscar entender e individualizar cada paciente.

Quinze dias depois do atendimento, Júlia conta ter reencontrado o rapaz. “Ele sorriu e me deu um longo abraço. Aquele instante durou uns anos”, postou. Segundo ela, o paciente afirmou estar bem melhor e até namorando.

— Essa ideia de “receitar” personalidades e intelectuais negras surgiu porque tenho essa característica de buscar abordagens mais voltadas às questões da sociologia, para que a pessoa entenda o lugar que ela ocupa na sociedade. Às vezes as opressões são estruturais e a gente fica achando que as situações acontecem por questões individuais. Essa foi minha tentativa de mostrar que existe uma estrutura maior, que é uma estrutura de opressão racista, machista e lgbtfóbica, que acaba agravando esse quadro dele. Ele não está deprimido porque é gay. Um homem gay, principalmente um homem negro, é visto de determinada forma pela sociedade, e é isso que o adoece. Acho que foi importante para ele se interessar por essa temática e buscar outras coisas que fazem mais sentido para ele.

Confira a postagem original.

Confira algumas das sugestões feitas pela médica:

Canal do Spartakus Santiago: Negro, nordestino e LGBT, o youtuber e publicitário formado em comunicação pela UFF utiliza seus vídeos na internet para buscar aumentar o entendimento sobre questões importantes na internet, como racismo e LGBTfobia.

Canal do AD Júnior: Negro, LGBT e ateu, o brasileiro mora atualmente em Hamburgo, na Alemanha. De lá, ele produz de forma independente o canal que, segundo ele mesmo, “deseja responder a questões sobre a diáspora negra no Brasil e no Exterior”. Ele começou a falar sobre racismo e negritude após participar de um vídeo sobre turismo em um canal do YouTube e receber ofensas racistas. A partir daí, AD Júnior transformou as injúrias sofridas em resposta sobre o racismo estrutural da nossa sociedade.

Conceição Evaristo: Nascida em uma comunidade na Zona Sul de BH, ela é poetisa e romancista, atuando nas áreas de Literatura e Educação. Em sua obra, a escritora busca abordar temas como a discriminação racial, de gênero e de classe. Uma de suas obras mais recentes, o livro de contos “Olhos D’água”, pode ser lido on-line clicando AQUI.

Djamila Ribeiro: Filósofa, feminista e acadêmica brasileira, Djamila é pesquisadora e mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo. Apesar de ter se tornado conhecida em todo o país pelo ativismo nas redes, ela também é autora de livros como “Quem tem medo do feminismo negro?” e “O que é lugar de fala?”. O último deles, inclusive, integra neste ano como bibliografia requisitada para o processo de seleção do Mestrado e Doutorado do Diversitas USP.

Juliana Borges:  Pesquisadora em Antropologia na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP), escritora e colunista do Blog da Boitempo, Juliana é autora do livro “O que é encarceramento em massa?”, que explica a relação entre as altas taxas de encarceramento e o racismo no Brasil.

Silvio Almeida: Natural de São Paulo, o jurista e filósofo é doutor em filosofia e teoria geral do direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco). Ele também atua como professor das faculdades de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP) e da Universidade São Judas Tadeu (SP). Ele é autor de vários livros, entre eles “O que é racismo estrutural”, livro indicado por Júlia ao seu paciente. A obra pode ser adquirida na internet, mas, até lá, você pode ouvir o autor falar um pouco sobre o assunto neste vídeo divulgado pela editora Boitempo.

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