No final de 2017 publiquei um texto nas redes sociais falando sobre as minhas leituras realizadas naquele ano. O texto não tinha por objetivo esmiuçar ou fazer resenhas gigantescas – que acabam sendo fichamentos online – dos 32 livros que tive o privilégio de então descobrir. Sua missão era dar impressões gerais do conjunto da experiência de leitura naquela época, coisa que também intenciono repetir agora. Creio que a importância de trazer a público textos como esse são o de incentivar a leitura no público-alvo, ainda que muito pequeno, da coluna que possuo no Provocações Filosóficas e fomentar a discussão sobre outros blocos temáticos para estudo e apreciação no ano vindouro, identificando temas de interesse seja no âmbito da ficção seja no âmbito da não-ficção, terreno no qual focarei quase que totalmente em 2019, devido a entrada no mestrado.

Em 2018, resolvi contabilizar teses de doutorado e dissertações de mestrado lidos na integra como livros lidos. Isso ocorre pelo fato de que algumas dessas obras, embora estruturadas sob uma linguagem eminentemente científica, acabam sendo publicadas em forma de livros por editoras acadêmicas. Foram quatro nessa categoria, no total. Nesse último ano também li mais literatura de ficção do que de costume. Foram 13 livros. Aproveitei para tirar o atraso e ler clássicos que há séculos estavam na minha lista mas que eu acabei desprezando devido ao tempo escasso na graduação (que eu encerrei no primeiro semestre do ano). Entram aqui livros como “1984”, “Revolução dos Bichos”, “Mrs. Dalloway” e “O Conto da Aia”. Ou seja, obras que há muito via colegas comentando mas que às vezes eu era obrigado, envergonhadamente, a dizer que conhecia apenas a sinopse e tinha muita vontade de ler. Há também literatura contemporânea como “O Fim de Eddy” do francês Edouard Louis, livro que me marcou e que comecei e terminei de uma vez só durante uma viagem de avião.

Sim, eu me sinto constrangido quando alguém diz que leu alguma obra-chave ou viu algum filme épico do qual eu ainda nem tive o trabalho de passar perto. Me sinto na obrigação de realizar atualizações constantes. Claro que ainda não cheguei em Tolstói, Italo Calvino, Umberto Eco, Amos Oz ou Emily Bronte. Mas já li de Victor Hugo a Balzac, de Kafka a Shakespeare, de Jane Austen a Dostoievski. Falta muito ainda, mas já dei uma pincelada em escritores centrais ao menos da literatura europeia. Leria muito mais se como cientista político não tivesse de priorizar leituras de não-ficção, mais voltadas para um viés de política/economia/filosofia. Que inclusive são aquilo que mais me interessa. E me interessa profundamente.

Em 2018, foram 27 livros de não-ficção (31 incluindo os trabalhos científicos lidos integralmente). Sendo assim, totalizaram-se 44 livros, abaixo dos 50 sonhados. Uma parte significativa sobre feminismo/teoria feminista/movimento feminista, tema da minha pesquisa no mestrado. Mas há também livros de metodologia, de filosofia política (Habermas, Arendt e Sandel), de economia (Laura Carvalho), conjuntura (Jessé Souza com seu A Elite do Atraso e Levitsky & Ziblatt com seu How Democracies Die) e sociologia (Foucault e seu clássico Vigiar e Punir entram aqui). Como não há tempo pra tudo, acabei fazendo algumas escolhas desordenadas. Acabo crendo que poderia ter lido mais e melhor, sendo mais seletivo ainda. Só que é importante lembrar que a leitura desses livros demanda tempo (geralmente consigo ler um livro por semana quando estou no ritmo) e dinheiro (já que não leio em PDF e compro a maior parte daquilo que leio em forma de edições físicas até para fomentar o mercado editorial em crise no Brasil de hoje).

Para 2019, a meta é alugar mais livros na biblioteca. Aproveitando que terei ficha na BCE da UnB, vou dispor de um dos maiores acervos universitários do país para pesquisar obras do meu interesse, inclusive em língua estrangeira – o que indica que talvez seja a hora de me desafiar a ler algum livro em inglês. Será o ano também de ler menos ficção (os 13 títulos podem se tornar 4 ou 5 reservados às férias) e se aprofundar ainda mais em leituras sobre teoria feminista, gênero, movimentos identitários e temáticas correlatas – focando em conhecer outras vertentes teóricas feministas. Mas também pretendo fazer uma incursão em alguns clássicos da teoria pós-colonial, do estruturalismo e do próprio liberalismo que são leituras obrigatórias para quem intenciona terminar um mestrado em Sociologia no final de 2020 tendo o mínimo de conhecimento teórico da área na qual intenciona realizar pesquisas e seguir carreira acadêmica. Provavelmente nesse ano vou incluir livros lidos em disciplinas na contabilização, o que parece bem complicado já que os professores mesmo na pós-graduação preferem trechos e enxertos a textos na integra. Clássicos da sociologia como Weber também estão na ordem do dia (ver listas abaixo). Uma das promessas para 2018 era fazer mais estudo teórico sobre marxismo e esquerdas, devido a meu posicionamento político, algo que não emplacou, mas que mantenho firme como ideal para 2019.

Livros lidos em 2018

FICÇÃO

*Sexta-feira ou os Limbos do Pacífico – Michel Tournier
*O Livro dos Seres Imaginários – Jorge Luis Borges
*Carmen – Prosper Merimée
*A Comédia dos Erros – William Shakespeare
*Um Artista da Fome seguido de Na Colônia Penal e Outras Histórias – Franz Kafka
*Antígona – Sófocles
*O jardim das Cerejeiras seguido de Tia Vânia – Anton Tchékov
*O Conto da Aia – Margaret Atwood
*O Fim de Eddy – Edouard Louis
*A Revolução dos Bichos – Georg Orwell
*Mrs Dalloway – Virginia Woolf
*1984 – Georg Orwell
*Um Teto Todo Seu – Virginia Woolf

(Destaque do ano na ficção: “O Conto da Aia” de Margaret Atwood)

NÃO-FICÇÃO

*Mudança Estrutural da Esfera Pública – Junger Habermas
*A Arte de Pesquisar: Como fazer Pesquisa Qualitativa em Ciências Sociais – Miriam Goldemberg
*Estudo de Caso: Planejamento e Método – Robert K. Yin
*A Constituição do Discurso Feminista no Brasil e na Argentina dos anos 1970 (Dissertação de Mestrado) – Mariana Jafet Cestari
*Movimentos Feministas e Direitos Políticos das Mulheres no Brasil e na Argentina (Tese de Doutorado) – Patricia Rangel
*Estudos Feministas e Estudos de Gênero: Um Debate (Dissertação de Mestrado) – Ilze Zirbel
*Gênero e Desigualdades Limites da Democracia no Brasil – Flávia Biroli
*50 Anos de Feminismo Brasil, Argentina e Chile – Lúcia Avelar e Eva Alterman Blay (organização)
*Protesto: Uma Introdução aos Movimentos Sociais – James J. Jaspers
*A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado – Friedrich Engels
*Teoria Política Feminista: Textos Centrais – Flávia Biroli e Luis Felipe Miguel
*A Dominação Masculina – Pierre Bourdieu
*Democracia – Charles Tilly
*Mulheres, Raça e Classe – Angela Davis
*Uma Reivindicação dos Direitos da Mulher – Mary Wollstonecraft
*Para além do Voto: uma narrativa sobre a Democracia Participativa no Brasil (Tese de Doutorado) – Ana Cláudia Chaves Teixeira
*A Elite do Atraso Da Escravidão à Lava Jato – Jessé Souza
*A Sociedade dos Indivíduos – Norbert Elias
*Manifestações e Protestos no Brasil Correntes e Contracorrentes na atualidade – Maria da Glória Gohn
*Democracia e Segredo – Norberto Bobbio
*Cidades Rebeldes Passe Livre e as Manifestações que tomaram as ruas do Brasil – Vários autores
*18 Brumário de Luís Bonaparte – Karl Marx
*Vigiar e Punir Sobre o Nascimento da Prisão – Michel Foucault
*A Cidade dos Homens – Bárbara Freitag
*Eichmann em Jerusalém Um Relato sobre a Banalidade do Mal – Hannah Arendt
*Quadros de Guerra Quando a Vida é Passível de Luto? – Judith Butler
*Justiça: O que é fazer a coisa certa? – Michael Sandel
*A Sociedade do Espetáculo – Guy Debord
*A Vítima tem Sempre Razão? Lutas Identitárias e o Novo Espaço Público Brasileiro – Francisco Bosco
*Valsa Brasileira Do Boom ao Caos Econômico – Laura Carvalho
*Como as Democracias Morrem – Steven Levitsky e Daniel Ziblatt

(Destaque do ano na não-ficção: “Mulheres, Raça e Classe” de Angela Davis)

Abaixo alguns livros para ler em 2019

(A lista se encontra em montagem já que o autor ainda reflete sobre as demandas de estudo para o ano, por isso mesmo os títulos abaixo são escassos e podem ou não ser considerados válidos mais adiante)

A leitura não deverá seguir obrigatoriamente a ordem abaixo

FICÇÃO

 

*Orgulho e Preconceito – Jane Austen

(Outros livros literários ainda estão sendo pensados para inclusão aqui)

NÃO-FICÇÃO

*Democracia contra Capitalismo A Renovação do Materialismo Histórico – Ellen Meiksins Wood

*O feminismo é para Todo Mundo Políticas Arrebatadoras – Bell Hooks

*O Que é Lugar de Fala? – Djamila Ribeiro

*O Que é Interseccionalidade? – Carla Akotirene

*O Que é Racismo Estrutural? – Silvio Almeida

*Teoria King Kong – Virgina Despentes

*Manifesto Contrassexual – Paul B. Preciado

*Políticas do Sexo – Gayle Rubin

*Política Sexual – Kate Millet

*Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil – Sueli Carneiro

*A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo – Max Weber

*Modernidade Líquida – Zygmunt Bauman

*Teoria Política e Feminismo: Abordagens Brasileiras – Flávia Biroli e Luis Felipe Miguel

*O Marxismo Ocidental Como Nasceu, Como Morreu, Como Pode Renascer – Domenico Losurdo

*A Nova Razão do Mundo: Ensaios sobre a Sociedade Neoliberal – Christian Laval e Pierre Dardot

Feliz Ano Novo para todos os leitores do Provocações Filosóficas. Que 2019 seja de muita luta e resistência!!!!

 

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Alberto Silva
Cientista Político, que carrega além das inquietações com a nossa sociedade e as formas de poder geridas a partir dela, um gosto pela escrita, pelas imagens e pelas diversas maneiras de expressão da beleza que está por trás do nosso interior.