O pediatra e pesquisador Daniel Becker, do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro, deu uma entrevista para o site Fundação Maria Cecilia falando a respeito da educação dos filhos.

Fundação Maria Cecília Souto Vidigal – Doutor Daniel, como o senhor vê o uso de palmadas e castigos físicos para impor limites? Existe medida para isso? Por exemplo, uma palmada não tem problema? Ou são todas atitudes condenáveis na educação da criança?

Daniel Becker – A agressão física, em que a palmada está incluída, é sempre condenável. Não acredito nela, na sua eficácia, porque deixa para a criança uma mensagem ruim. Pode ser evitada por meio de outras estratégias educativas. Essa conversa de que “eu apanhei muito na infância e estou aqui, um adulto funcional e feliz porque tenho minha família” é muito boba. É como dizer, “meu avô fumava três maços de cigarro por dia até os 90 anos e morreu atropelado” pra justificar porque a pessoa fuma. Ok, sim, seu avô teve essa sorte. Mas as estatísticas mostram que 90% de fumantes que consomem essa mesma quantidade de cigarros morreram de enfisema, câncer ou infarto. O fato de algumas pessoas terem “sobrevivido” a castigos físicos na infância para uma vida adulta feliz não significa nem que a maioria não seja prejudicada, nem que ela mesma não queira admitir que alguma marca negativa ficou dessa experiência. Mostrar à criança que as soluções dos problemas são alcançadas por meio do uso da violência, no mínimo, é uma mensagem ruim.

FMC – Quais outras estratégias o senhor indica para impor limites e educar os pequenos?

DB – Existem inúmeras formas de melhorar a comunicação com a criança desde cedo. Há livros sobre isso, apoios educativos a famílias, psicoterapia no caso de crianças extremamente opositoras ou rebeldes. É claro que há momentos em que os pais perdem a cabeça. Não dá para ser um pai calmo o tempo todo, uma mãe zen 24 horas por dia. Uma palmadinha às vezes escapa. Mas não deve ser usada como solução, como estratégia. O castigo físico envia uma mensagem ruim à criança e a faz modelar seu comportamento pelo medo, uma emoção que pode ter reflexos na vida adulta. Mudar a comunicação pode ajudar muito. No lugar de dizer “você é um bagunceiro”, “você é burro”, que são falas tão abusivas como uma surra, dizer “eu não gostei do que você fez”. Ou ainda, “sei que você está com raiva da mamãe. Estou vendo e entendo. Mas não pode bater na mamãe por causa disso.” Reforçar o positivo também é importante, e precisamos lembrar de elogiar as ações e esforços da criança “fiquei muito feliz porque hoje você se comportou bem no restaurante”. Essas estratégias simples de comunicação podem ajudar a criança a entender seus sentimentos, ter consciência de suas emoções – o inicio da tão importante inteligência emocional. E ajudam a criar uma disciplina positiva, a modular o comportamento, inclusive o social, sem que precise recorrer a palmadas.

FMC – Uma maneira de criar uma comunicação e um vínculo melhor com a criança é por meio da leitura. O senhor conhece a campanha “Receite um livro” da Sociedade Brasileira de Pediatria?

DB – Sim, conheço essa campanha e a acho excelente. Eu prescrevo livros desde muito cedo. A leitura é profundamente fundamental para o desenvolvimento infantil, porque trabalha inúmeras áreas da linguagem e do desenvolvimento cerebral. É também um elemento de conexão entre pais e filhos, um “remédio”, uma verdadeira panaceia para a criatividade e a imaginação, para a criança desenvolver aspectos importantes emocionais e cognitivos. Enfim, incorporar histórias à memória ajuda a criança a criar a própria história e torná-la um adulto mais apto para a vida. Além de fortalecer as habilidades de falar e se comunicar, a leitura deixa a criança mais feliz. A conexão que se estabelece na memória afetiva dela, que sempre antes de dormir ouve uma história contada pelo pai ou pela mãe, é algo maravilhoso.

Veja a entrevista completa no site Fundação Maria Cecilia

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