“Não basta ter informação, é preciso saber o que fazer com ela” por Mario Sergio Cortella

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Via Revista Galileu


Para o filósofo, escritor e palestrante Mario Sergio Cortella, a ciência desempenha um papel fundamental no desenvolvimento de qualquer nação que almeje dar a seus cidadãos uma vida mais sofisticada. “É evidente que o acesso ao conhecimento científico eleva a condição geral de uma sociedade porque aumenta seu repertório de soluções”.

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Só que, para a ciência atingir todo o potencial de empoderamento humano que lhe é inerente, não basta que fique confinada nas universidades e círculos acadêmicos. Ela precisa circular. E os divulgadores científicos estão entre os agentes que melhor promovem essa disseminação da ciência e de sua importância na sociedade.

“Eles estabelecem pontes, estendem o convite, abrem a porta para que a pessoa que não esteja no campo da ciência também possa adentrar o território”, diz. Para o filósofo, o principal desafio dos divulgadores é explicar de forma simples, mas não simplória.

Cortella também falou sobre os desafios de conviver com o excesso de informações dos tempos atuais. Ele deu algumas dicas para lidar com o problema da melhor forma possível — e extrair conhecimento e sabedoria em meio à correria da vida moderna. Confira abaixo a íntegra da conversa:

Qual é a importância de termos uma sociedade minimamente letrada em assuntos de ciência e tecnologia? Isso influencia em outras esferas, como política ou cultura?
Toda sociedade que forma de maneira mais sofisticada seus cidadãos, oferece maior autonomia, maior número de ferramentas de liberdade, emancipação e capacidade criativa. Claro que a ciência não é a única maneira de se fazer as coisas, mas é a que deu a eficácia maior em tempo menor. Não é infalível, mas tem nível de resultado muito mais estruturado. É evidente que o acesso ao conhecimento científico eleva a condição geral de uma sociedade porque aumenta seu repertório de soluções. Mesmo que a gente tenha encantamento pela sabedoria popular, que é importante e extremamente relevante, ela é restrita. A ciência sabe que precisa de resultados, não apenas de atitudes reflexivas.

Vivemos em uma sociedade, em uma civilização, onde o conhecimento flui livremente e em abundância ao alcance de qualquer pessoa, mas a correria do dia a dia faz com que a grande maioria delas não tenha tempo de absorver esse conhecimento de forma satisfatória. Como o senhor enxerga essa questão?
A gente não necessariamente tem abundância — tem excesso. Abundância é quando tem fartura, suficiência, temos algo que ultrapassa nossa capacidade de usufruto, de absorção e apropriação. É por isso que em grande medida o que falta hoje é o critério. Aquilo que faz com que eu, pegando o excesso, retire o que me serve e descarte o que não me serve é exatamente esse critério. Um dos exemplos mais fortes vem da área do self service. Quando você entra em uma loja, em uma livraria, tudo é mega, megastores, há centenas e centenas de produtos à disposição. Se não tiver critério, a pessoa enlouquece. Especialmente no campo do conhecimento, não se deve confundir: informação é cumulativa, conhecimento é seletivo. Comer bem não é comer muito.

Sob o ponto de vista do indivíduo que gostaria de aprender mas não tem tempo, diria que esse paradoxo pode ser cruel ou frustrante a essa pessoa?
A pessoa que não sabe o que quer, quando entra em uma livraria, entra também em um estado de desespero. Se vai a um restaurante self service, fica desesperada. Quando vai a um rodízio, essa coisa bem brasileira (espeto corrido, como se diz no sul), só pode ser um local de fruição e aproveitamento se tiver critério de seleção. Do contrário, se for aceitando tudo o que vier,  no máximo vai ficar empanturrada em 15 minutos. O indivíduo se depara hoje com um excesso de oferta, sua única possibilidade para criar um anteparo, uma capacidade de aproveitamento menos alienado e robótico, é através de critérios de seleção. Talvez a advertência mais séria seja aquela feita pelo gato para Alice, a do País das Maravilhas: ela pergunta para onde vai a estrada, ao que o bicho questiona para onde a moça quer ir. Ela responde que não sabe para onde vai — então qualquer caminho serve.

Que conselhos daria a alguém que se encontra nessa situação?
São três grandes medidas. A primeira delas é ter clareza do que lhe importa, o que eu quero levar para dentro de mim, importar. A primeira coisa é ter clareza do objetivo. A segunda, é pensar no que nos importa, o que de fato tem relevância para a vida em comunidade ou aquilo que é mera ruptura dessa condição. E o terceiro é o que me importará. Como preparo o que desejo mais adiante, pois não basta ter consumo imediato, é preciso também preparar as condições para o que vou ser no momento subsequente. Nessa hora, volta a necessidade de evitar o risco da superficialidade, do conhecimento epidérmico, de passagem. Apenas a absorção das coisas, embora até pareça concretamente uma grande vantagem, o que há é um tsunami informacional. Na ausência de critérios de seleção, as pessoas acabam deglutindo coisas que não necessariamente teriam relevância para ela ou para a comunidade. Não basta ter informação, é preciso saber o que fazer com ela.

Falando especificamente sobre o conhecimento científico, que é complexo por natureza e cuja compreensão exige um esforço mental considerável, como vê o papel dos divulgadores de ciência para a sociedade?
O divulgador é aquele que coloca a pessoa em contato, alguém que de maneira simples sem ser simplória estabelece uma ponte, estende o convite, abre a porta para que a pessoa que não esteja no campo direto da ciência em seu cotidiano também tenha a possibilidade de adentrar nesse território. Há uma grande diferença entre o simples e o simplório, sou professor de filosofia, preciso fazer com que ela seja palatável, digerível, se quiser fazer com que as pessoas tenham possibilidade de fruição dessa área do conhecimento. Não posso ser simplório, delirar não é filosofar. Opinião balizada é diferente da achologia. Quando alguém que tem estrutura de fundamento diz “eu acho”, está se apoiando não só nele, mas no conjunto de instâncias legitimadoras e revisoras do conhecimento que emite. Quando é superficial, é só opinião, não um conceito fundamentado.